Dado que o Obliviário tem sido visita amiúde dos nossos irmãos gémeos (separados à nascença), desse bonito rincão chamado Galiza/Galicia, não podia deixar de presenteá-los com uma das mais curiosas descrições da sua presença em Portugal oitocentista. Trata-se do testemunho de James Murphy, um britânico que de passagem pelo Porto em 1788 deixou o relato sobre a presença dos galegos nesta cidade. O texto é expressivo o suficiente sobre a condição social e profissional destes milhares de homens e mulheres e a sua relação com Portugal (veja-se hoje o caso de trabalhadores de leste e de África) dispensando comentários mais elaborados:
«Os trabalhadores com mais emprego são nativos da Galiza, província de Espanha; por isso são chamados Galegos. O seu número ronda os 8 milhares só na cidade do Porto, enquanto em todo o reino pensa-se existirem não menos de 50 mil galegos destes aventureiros industriosos. Se o meu cálculo está correcto (e não possuo autoridade para o afirmar veementemente) e se cada homem ganha, em média, 18 pence por semana, então o comércio mais lucrativo de Portugal é feito pelos Galegos, pois as suas poupanças, de acordo com estes cálculos, chega a 195 mil libras por ano, que eles mandam para a sua terra. Aqueles que testemunharam o seu modo de vida, admitiram que a soma é inferior ao calculado, pois os Galegos são os indivíduos mais poupados do Mundo. São alimentados gratuitamente à porta dos conventos, alojam-se nas caves de vinho, nos estábulos ou nos claustros, vestem os trapos em que habitualmente dormem. No entanto muitos deles possuem propriedades e casas na sua terra, para onde regressam, partindo pela família o seu salário suado, retirando-se finalmente com o suficiente para viverem independentes do seu trabalho e para passar o ocaso da vida aproveitando a felicidade doméstica. Para honra desta raça industriosa não devemos esquecer que a atracção do ganho raramente levou algum delas a cometer algum tipo de acção desonesta.»
James Murphy [1760-1814] – Travels in Portugal […]. Londres: A. Strahan, and T. Cadell and W. Davies, 1795.

Também tenho uns ascendentes galegos... com muita honra... se não fossem também eles , não seria quem sou, não é assim???
ResponderEliminarAbraço.
Cara amiga,
ResponderEliminarTambém tenho ascendentes galegos. E subscrevo a honra :)
Abraço
Vejo que apagou os comentários desfavoráveis na publicação anterior. Espero que tenha sido por lapso - a internet é um espaço de liberdade, e se dentro dos limites de convivência, os blogues são espaços de comunicação democrática.
ResponderEliminarÉ muito simples, G. Não aceito insultos, nem comentários anónimos. A democracia faz-se com responsabilidade.
ResponderEliminarA democracia também se faz com dissidência de opiniões. Seja, a cada um a sua definição. Mas é óbvio que nunca mais entro neste blogue.
ResponderEliminarUi. O G. entra aqui como observador, tanto quanto sei não fez nenhum comentário, nem participou na discussão e atira com um «óbvio que nunca mais entro neste blogue». Não compreendo a sua posição, mas parece-me algo estapafúrdia. Enfim, está no seu direito.
ResponderEliminarPois eu dizia, mais ou menos, que o relato é muito semelhante à estampa que ofereceram (e oferecem) os trabalhadores portugueses na Galiza desde há uns decénios.
ResponderEliminarAgora acrescento que o senhor não justificou seu tendencioso titulo: "uma amizade servil", expressão contraditória onde as haja.
Pedro Bravo López, Corunha.
Pedro,
ResponderEliminarClaro que sim, tem razão.
Servil porque dependente. Presumo que entenda o conceito luta de classes. Para o português o galego era o aguadeiro, o pedreiro, a força bruta, a exploração fácil. Ainda hoje há uma expressão que diz «trabalhar como um galego». Creio que nestas coisas de «nações» amigas é preciso algum cuidado. Hoje somos amigos do que foi nosso servo. Amanhã o servo será o nosso senhor.
Também tenho família na Galiza, simpatizo com os galegos, e até certo ponto, sou solidária com as suas reivindicações. Até à medida do razoável, claro.
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