12 de julho de 2010

Da extinção das espécies.

Dito isto, o doutor Duarte Madeira Arrais ergueu-se e acrescentou:
- Quer alguma cousa de mim?
- Desejava que me receitasse alguma cousa para a dor do fígado.
- Tome um caldo de víboras.
- De víboras? O doutor cuida que as víboras se vendem na praça como as frangas?!
- Eu apliquei muitas vezes a meu amo o senhor D. João IV o caldo de víbora. No meu tempo apareciam em barda, quando eram necessárias.
- Agora não há víboras.
- Então que sumiço levaram elas?
- Provavelmente esconderam-se no coração das damas.
O douto alisou as meias de seda preta, simetrizou as fivelas das ligas e despediu-se, murmurando:
- Ainda bem que eu deixei de amar há cento e oitenta anos. No meu tempo o coração da mulher era ninho de rolas, e não lura de víboras.

Camilo Castelo Branco, Cousas leves e pesadas (A Hidroterapia)

1 comentário:

  1. Em defesa das mulheres, diga-se que muitas são as vezes em que Camilo as trata de uma maneira bem mais leve :)

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