23 de junho de 2010

O ano da morte de José, o Saramago.

Corre grande celeuma acerca do facto do Presidente Cavaco Silva não ter prestado as devidas homenagens a Saramago. Acusam-no de mesquinhez, de inferioridade frente à figura grande e imortal desse escritor nobelitado. Não gosto do discurso laudatório pós-mortem, sobretudo vindo de quem, ainda alguns meses antes, o acusava de ser o anticristo.

Cavaco Silva não esteve nada bem, mas já devíamos estar habituados à sua incapacidade de lidar com os portugueses de quem ele se diz presidente naquela arrogância absoluta. Convenhamos, é nestas coisas que a república mostra a sua fraqueza. Não me venham com aquela conversa que podemos mandar o presidente embora quando quisermos. Mesmo que fosse assim tão simples, o próximo podia ser pior. É neste desgaste que devemos focar a nossa atenção. É nesta instabilidade, num tempo em que pede serenidade, confiança e unanimismo que devemos pensar: até que ponto o sistema republicano tem assim tantas vantagens? E podia seguir citando inúmeros casos, sobretudo os que ocorreram durante o mandato do Prof. Cavaco Silva que, em ano de Centenário, tem demonstrado as fragilidades de um cargo limitado, manietado por consciências e políticas menores.

Por outro lado, mantenho a mesma opinião sobre Saramago, não obstante o facto de considerar que o seu enterro merecia a representação devida e abrangente. A maior parte dos comentadores que leio não tem o conhecimento literário necessário para ajuizar sobre o valor global da sua obra. Felizmente que, quanto a isso, não preciso de citar apenas os títulos e os resumos. No contexto de produção de escrita do século XX português, Saramago não é, nem o único, nem o mais interessante. Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner, Namora, etc podiam ombrear com ele na disputa pelo Nobel. Mas foi um governo socialista que o indicou e foi pela ideologia que o ganhou. Há muitos anos que o Nobel da Literatura deve ser arauto de uma certa liberdade, independentemente da qualidade da sua escrita ou da força imagética da sua obra. De resto, se Obama ganhou o Nobel da Paz, não me parece que tal galardão ofereça garantias de uma total lucidez...

Nunca gostei de Saramago como indivíduo que necessitava destruir para chamar a atenção, alguém cuja escrita se ofuscava atrás de tristes polémicas que tiravam o mérito (devido, aliás) ao poder da escrita. De facto, a última polémica em que se envolveu, a propósito de Caim, não passou de uma lamentável campanha de marketing, que cumpriu os seus objectivos (as vendas do livro dispararam), mas confirmaram a imagem daquele pobre e moribundo Saramago que toda a vida se impusera pelo ataque, um marxista algo fanático que tanto se vergava ao rei da Suécia, como insultava os políticos não alinhados do seu país. Quando não o próprio país...*

Por isso, apenas lamento a morte de Saramago no sentido em que morre um escritor de génio, que poderia produzir pensamentos e imagens como as que podemos extrair de Levantado do Chão, do Ensaio sobre a Cegueira ou do Ano da Morte de Ricardo Reis.

Se lamento a sua "morte" política? Não. Seria hipócrita se o fizesse.

* P.S. Também não gostei de certos discursos nacionalistas. Contudo, é óbvio que Saramago que não era o maior dos patriotas. Era um iberista. E quanto a isso, pouco mais há a polemizar.

1 comentário:

  1. Nunca gostei muito da obra de Saramago, apesar de me considerar um grande leitor e apreciar imenso a literatura portuguesa. Como homem que foi o que mais detestei nele foi a sua agressividade e a falta de respeito por valores nacionais e que fazem parte da nossa cultura, a começar pela religião.
    A sua intolerância e arrogância foram o maior defeito da sua vida.
    Quanto à sua obra nunca me seduziu, sobretudo a partir do momento em que comecei a lê-la e não me dei nada bem com a ausência de pontuação.
    A pontuação é um elemento fundamental da língua portuguesa e de qualquer idioma. Ajuda não só a estrutural o pensamento, como evitar qualquer ambiguidade na mensagem que se quer transmitir. Saramago desrespeitou essa norma linguística, como desrespeitou muitos outros valores. Por isso e por outras coisas nunca apreciei muito o seu estilo. Aliás, estou mesmo convencido que haveria na Literatura Portuguesa outros escritores, como por exemplo Miguel Torga, que mereceriam melhor do que Saramago o Prémio Nobel. Entendo mesmo que foi um Prémio político e não um prémio literário. jcerca

    ResponderEliminar

A Democracia exige Responsabilidade individual. Nicks, anónimos ou mensagens insultuosas demonstram faltam de auto-estima, comportamentos associais e incapacidade de lidar com a opinião alheia e, como tal, não serão publicados.