2 de março de 2010

Conselhos excelentes


«Nunca o lavrador chegaria a colher, se todo o ano andasse perguntando como havia de semear: nunca o mercador viria a ganhar, se reparasse em todos os riscos de perder; nem não sairia do porto, nem homem de sua casa, se se cuidasse nos perigos, que se encontram ordinariamente. A regra dos bons Políticos é, que a utilidade, que se oferece presente sem consequência de dano, se há-de abraçar, sem ponderar os futuros com demasiada prudência; porque as cousas humanas estão sujeitas a casos tão vários, que raras vezes acontece o que se cuida com bom fundamento; e quem despreza a oferta do bem presente pelo temor do mal futuro, nem propício, nem certo, com dor e descrédito vem a conhecer, que perdeu ocasiões gloriosas por receios vãos. Péssimas são as providências tão subtis, que antevendo acauteladas os futuros, não tem cautela para ver o presente. Faça-se hoje o que parece bom, e venha o que vier; que ordenar as cousas bem, é de sábios; aprender dos sucessos é de ignorantes, e não os merece felizes quem por eles qualifica o conselho

António de Sousa Macedo - Flores de Espanha, excelência de Portugal, 1737

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