18 de fevereiro de 2010

"Portugal Enfermo", 1819

Eu vejo, nestes tempos desditosos
Povos empobrecidos, e chorosos ;
Pois quando vem hum mal, outros se seguem,
Que os Mortaes atenuão, e perseguem. '
Mas apezar da falta de dinheiro,
Apparece nos bairros o gaiteiro,

As bandeiras nas cordas penduradas
Por onde as festas sao annunciadas,'
Tudo feito com lustre , e com grandeza
Foi Juíza a Senhora Dona Andreza.
Os festeiros não tem nada de seu;
Mas a festa da rua tudo deu.
Anda o velho engraçado co' os Leilões
Dos cargos, que custarão bons tostões.
Temos fogo de vistas, vistas raras,
N'hum beco, que de Largo tem três varas

Que huma roda, que salta era fogo ardendo;
Vem desordens fazer nos que estão vendo;
E póde muito bem a propriedade
Com fogo reduzir-se em ametade.
Estes p'rigos não são muito pequenos,
E já tem succedido mais, ou menos.
Nunca vi de dinheiro tanta fome,
Nem tantas festas de despeza, e nome.
Eu louvo, e não crimino a devoção;
Haja festa de Igreja, e bom Sermão;
Tenha a festividade do arrayal
Cousas, que facão bera, e nunca mal.
O dinheiro de máscaras, e fogo
Vá gastar-se com outro desafogo
Mais útil, mais vistoso, mais louvável
Em acudir a tanto miserável.
Dem rações á pobreza dessa rua,
E a festa christãmente se conclua.
No lugar, era que o fogo armar se havia,
Haja comprida meza neste dia;
Hum, ou dois caldeirões de mantimento,
Que sirvão aos mendigos de sustento,
Ministrados por esses bons festeiros.
Que se facão da meza dispenseiros,
Sem tumulto, em socego, e com cuidado
No cégo, na criança, no aleijado.
Isto he que dá exemplo, he que edifica;
Deste modo a função completa fica [...]

Portugal Enfermo, José Luís Guerner, 1819

7 comentários:

  1. Tem quase 200 anos, mas podia ter sido escrito ontem...:(

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  2. URGÊNCIA MÁXIMA!

    O meu país, Senhor! está doente,
    não sei de quê, mas é moléstia séria,
    cancro talvez ou coisa mais pungente,
    lepra moral, um nojo, uma miséria!

    Por tua Mãe, a quem se consagrou,
    acode-lhe, Senhor! enquanto podes:
    já tanto se aviltoue degradou
    que pode sucumbir se não lhe acodes!

    A causa deste estado é porventura
    este arremedo de democracia
    carente de vergonha e de lisura!

    Se o meu país não volta a ter decência
    e a ser de novo uma nação sadia,
    talvez se nos acabe a paciência!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  3. O DESCALABRO!

    Um século depois do seu começo
    o regime político que temos
    o cúmulo atingiu do mau sucesso
    nos dias conturbados que vivemos!

    Tudo são fraudes, nada funciona
    desde a justiça à banca, para não
    se referir sequer a educação
    que, de hora a hora, mais se desmorona.

    Uma tristeza... aquele parlamento
    que mais parece um bando de garotos
    primando por seu mau comportamento!

    Deus nos acuda! Deus nos deite a mão
    e caso escute e ouça os nossos votos
    acabe por ter dó... desta nação!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  4. " Que estes p'rigos não são muito pequenos"

    nada melhor para ilustrar da "doença" de que enferma a nossa Pátria?


    ABRAÇO NUNO

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  5. VIVA A MAMJEDOURA!

    Em vez de se pensar em governar
    este pais de forma honesta e séria,
    pensa-se apenas em arrecadar
    em cada mês uma choruda féria!

    JCN

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  6. O GRANDE EMBUST!

    Não há que ter ilusão
    quanto à maneira concreta
    e desde logo secreta
    como é feita a eleição

    dos diversos deputados
    ao chamado parlamento,
    os quais, em dado momento,
    são pelo povo votados!

    Sem direito a escolher,
    este só tem que dizer
    se concorda ou não concorda

    com a lista que os partidos
    lhe apresentam para a engorda
    dos seus membros preferidos!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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