3 de janeiro de 2010

Um editorial atrasado.

Um pequeno esclarecimento, antes de prosseguir com este blogue.
Eu não vim até aqui para ser objectivo, nem rigoroso, nem imparcial.
Este não é o blogue oficial de um partido, de uma associação ou de um grupo informal.
Este blogue sou eu e as minhas opiniões que são subjectivas, extremamente complexas e muito parciais.
Acontece que fora deste blogue eu sou eu e o meu trabalho, as minhas relações, o meu mundo racional e muito arrumado. Aí sou objectivo e extremamente rigoroso, embora - porque sou humano - nem sempre possa ser tão linear como gostaria.
Mas é só para dizer e sublinhar uma coisa importante: nós, nunca, em tempo algum, conseguiremos ser imparciais. A imparcialidade é, cada vez mais, sinónimo de incompetência, de não-sei-fazer-por-isso-não-me-pronuncio. Ou mesmo de arrogância intelectual. Ora eu que acredito, cada vez mais na democracia participativa, que os políticos somos nós e não aqueles que insistem em nos apresentar para elegermos, quase à força; eu, que acredito que é de dentro de nós que partem as revoluções (se houver necessidade delas) e que nada ou pouco se faz delegando nos outros; ora eu, nunca poderei, nem quero ser imparcial. Quero ser o paradoxo de que falava Agostinho da Silva. Nem ortodoxo, nem heterodoxo. O Paradoxo.
Por isso, e ainda mais por que, não tendo nunca escrito um editorial, quero deixar bem claro que este blogue não é de um simples espectador. É de um interveniente. E sendo de alguém que intervém, não podia ser uma folha de comunicados assépticos.
Não gosto de militâncias, mas nunca me peçam para abdicar dos meus ideais. Essa desistência é, com certeza, uma das causas da tão falada e actual Crise, pois engordámos e entregámos em meia dúzia de oportunistas os nossos direitos e os nossos deveres.
Não contem comigo para isso (*).
Tenho dito.

(*) Ainda para mais sendo 2010 o ano do Centenário da República que nos educou para acreditarmos em algo mascarado e vazio. Eu sou historiador, mas não deixo de ser cidadão e, como tal, tenho o direito e o dever de informar e a ser informado, correctamente. Se ser Historiador é escrever uns artigos, leccionar, ou fazer programas de televisão, apenas para "enfeitar" então devemos reavaliar o sentido da historiografia. História sem utilidade é apenas decoração. A História deve servir a sociedade ou, então, estaremos a dar razão a muitos alunos que não lhe encontram significado nem uso.

6 comentários:

  1. Parabéns pelo blog e pela coragem. Deixei o «Mansidão» por razões ponderosas que não cabe aqui expender. Agora, estou em theosfera.blogs.sapo.pt Não tenho divulgado porque queria que, para já, fosse mesmo só para amigos.
    Permiti-me transcrever parte deste excelente comentário.
    Tenho ouvido, em Igreja, exaltar muito a imparcialidade. Sucede que Cristo nunca foi imparcial. Ele tomou partido. Pela verdade. Pelo ser humano. Por isso, morreu. Por isso, ressuscitou.
    Feliz ano novo.

    Em Cristo Senhor

    João António
    padre

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  2. A(pseudo) imparcialidade tão defendida por certos "democratas" só existe e é assim considerada e apregoada quando vai ao encontro das suas ideias, caso contrário, será "reaccionarismo" e muitas outras coisas terminadas em ismo.
    Concordo que a imparcialidade em absoluto não existe pois cada pessoa e, por conseguinte,as suas ideias, são sempre fruto de um grande conjunto de circunstâncias que moldam a sua maneira de ser e de pensar. Mais do que imparcialidade deve exigir-se respeito pela opinião do outro, mesmo, e sobretudo, quando divergente. É aí que se manifesta o grau de democracia.
    José Cerca

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  3. Caro Pde. João António,
    Muito obrigado pelas suas palavras. É um gosto relê-lo, ainda bem que regressou.
    Amigo José Cerca,
    O respeito é cada vez menos um valor em uso. E a internet, com todos as vantagens que tem, trouxe-nos o maior dos defeitos: a possibilidade de não assumirmos as nossas posições e acusarmos os outros no anonimato. É por isso que é importante educar para a verticalidade.
    Um abraço

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  4. Caro Nuno!

    é muito inspirador este teu texto, a imparcialidade é inerente à nossa condição, mesmo à de historiador... :)

    beijs

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  5. Caro Nuno Resende:
    Aprecio a sua escrita e as suas opiniões manifestadas. Mas discordo absolutamente do seu diagnóstico: que o mal maior actual é não ter opiniões (por razões politicamente correctas, presumo). A mim parece-me que a ênfase deveria estar na (pouca ou ausência) de argumentação e não da opinião. É que estas são questões realmente distintas. Um dos problemas mais irritantes, e mais destruidores de um bom funcionamento social é que se confunde o direito (legítimo) a todos ter opinião -que deveria ser fundamentada- com a facilidade (não consciente) com que se expressam "convicções" que mais parecem "crenças", sem qualquer necessidade de se aliceçar o que se diz (e que deveria ser realmente "pensar" e não só "dizer"). Isto destrói a nossa capacidade de falar com quem à partida não concordamos e leva frequentemente ao populismo e ao culto da personalidade. Claro que muita da comunicação social contribui para este estado de coisas (acho particular piada aos "inquéritos" que os jornais fazem nas suas edições online tipo "acha que o fcporto vai ser campeão?"--eu só posso esperar ou suspirar ou acreditar que isto aconteça, mas "achar"??). Ou seja, o problema não está na opinião mas na (falta) de fundamentação. As convicções não deveriam ser (só) baseadas no sentimento hereditário (a minha "família"), mas que me permitam moldar/fazer as minhas "famílias". Cumprimentos, José Martins

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