12 de janeiro de 2010

Sumário da ideia de República em Portugal.




Sejamos francos, todos nós, monárquicos, republicanos ou indiferentes: esta não é a melhor altura para gastar 10 milhões de euros em comemorações. Partindo da serenidade deste pensamento, vamos ao que interessa: Portugal deve, ou não deixar de ser a República que é desde 1910

Talvez não consideremos necessária a imediata alteração do regime, mas tal não pode dever-se a opiniões estapafúrdias do género “as monarquias não são democracias”, ou “a república é o melhor e o mais justo regime”. Basta olhar à nossa volta para perceber que nenhumas destas asserções é verdadeira. Se assim fosse, estaríamos a colocar a Suécia, a Holanda, a Noruega e tantas outras monarquias, ao nível de ditaduras ou regimes pouco honestos. 
Se algum mérito há a atribuir às comemorações do Centenário da República é o de que precisamos de debate. Podemos não precisar de um regime novo, como sustentam alguns, mas precisamos, com certeza, de eliminar preconceitos e estereótipos em relação, respectivamente, às noções de monarquia e república.
Desde logo a República Portuguesa funda-se em ideais muito pouco democráticos. Estafado o lema francês, jacobino e maçon da Liberdade, Igualdade e Fraternidade para qualificar momentos pouco edificantes do republicanismo em Portugal, de que é testemunho maior o período da Primeira República. 

Não interessava a qualquer um dos republicanos, ainda em monarquia, que o regime fosse derrotado com serenidade. Prova-o a forma como D. Carlos e o seu filho D. Luís Filipe foram sumariamente executados em plena praça pública. A República intelectual atacava na imprensa (sobretudo através da caricatura, poderosa arma num país de analfabetos), nos municípios e no Parlamento. E cabia aos sicários, - a ralé armada, braço terrorista dos intelectuais -, por em prática os desejos mais tenebrosos. Um plano de tomada do poder não podia, por isso, ser feito em pezinhos de lã. 
Primeiro, não havia condições para electrizar o eleitorado. Se há culpas a imputar aos políticos da Regeneração é o de que o plano da educação pecou por tardio. Um país de iliteratos, de analfabetos, é muito mais fácil de dominar do que um território de cérebros instruídos. A República sabia-o e aproveitou-se disso ao comunicar ao resto do país a mudança de regime por telégrafo. Por isso, devemos desconfiar da ideia de que república foi uma revolução do povo. Pode não ter tido a oposição dos monárquicos e estes serem, de facto, uma pequena percentagem da população do país, mas é muito difícil acreditarmos que, a 4 de Outubro de 1910, Portugal fosse um país de republicanos. Ontem, como hoje, a realidade não pode ser mascarada: somos um país de abstencionistas, de indiferentes.
Por outro lado, os republicanos sabiam bem que o Reis constitucionais eram amados, se não pela grande massa (a da indiferença), pelo menos por uma grande parte da intelectualidade portuguesa, mesmo a que se encontrava ligada a sectores da Esquerda, nomeadamente ao Socialismo. D. Carlos fazia parte dos Vencidos da Vida, unia-o aos desiludidos a incapacidade de renovar cultural e socialmente Portugal. Só havia um caminho: eliminá-lo. A morte de D. Carlos e do príncipe herdeiro nunca pesou na consciência revolucionária dos teóricos do regime. Para eles, fora algo necessário. Herdeiros legítimos do sangue da Revolução Francesa, pedia-se aos carbonários a cabeça régia, como fez o exacerbado Afonso Costa, aos berros, no Parlamento, e eles -força bruta e sanguinária- davam-lha.
A República é uma obra de minorias, por um lado, de um punhado de literatos inflamados e, por outro, de um conjunto de operários ressabiados e electrizados por uma mistura de ódio às humildes origens, ao cura e ao proprietário abastado (ver o caso de Aquilino Ribeiro). Lisboa fez a revolução, o Porto subscreveu-a e o resto do país, na sua proverbial indiferença, aceitou-a como fizera ao longo de todo o século XIX ao aceitar a dança das cadeiras no parlamento.

E eis-nos na questão essencial: a monarquia não caiu por culpa dos monárquicos. A monarquia vacilou, tremeu e sucumbiu ao golpe duríssimo de 1 de Fevereiro de 1908 (e não à escaramuça de 5 de Outubro de 1910). A monarquia desgastou-se no rotativismo, na voragem para a qual foram atirados D. Luís e D. Carlos, confundindo-se o monarca e o político. De notar que os republicanos eram, na sua maioria, emergentes das fileiras do regime. Cansados de todo o tipo de rejeições, deixaram Progressistas e Regeneradores para tentar uma terceira via, muito mais condicente com a sua própria ideia de mérito próprio, nem sempre concordante com a do serviço à Pátria. O projecto reflecte esta ideia: substituir o rei pelo presidente, alguém que pudessem manietar e que pudesse ser, não a face de uma dinastia, mas de um ideal, que vogou ao sabor dos insultos e das agressões ao longo da Primeira República.
Se há algum mérito a retirar destas comemorações, é o de que podemos lucrar, pelo menos, com a discussão e o debate. Eliminar da nossa mitografia muitos estereótipos como os que ainda se podem ver aqui e ali, onde a nossa juventude mistura república e noções de nação e pátria, fazendo tabula rasa de séculos de História.
A República implantou-se à força, mas sem dificuldades, em 5 de Outubro de 1910. Alterou a legislação, mas foram os símbolos – numa época em que se apelava às identidades nacionais – como a bandeira, que mais contribuíram para consolidar a ideia de uma nova nação, surgida das cinzas monárquicas. Não o escamoteemos, temos sido alvo de lavagem cerebral, ao dizerem-nos, desde as cadeiras da primária, que as cores verde e vermelha são o símbolo da esperança e do sangue. Absurdo. Tais cores são tudo menos esperançosas, são o testemunho da presença das ideologias-base dos mentores positivistas do novo regime. Mas, é claro, para haver um novo regime, com estabilidade e confiança, é preciso reinventar a nação, eliminando ou reinterpretando os velhos símbolos.
Poderá nem haver disponibilidade mental ou económica para mudarmos o regime, mas nada impede que o coloquemos à discussão. Afinal, esse deveria ser o verdadeiro sentido da democracia. Ou a ética republicana, essa expressão que nada diz, está acima de qualquer ética? E a república, que se arroga a guardiã de tantos valores, não aceita o valor maior, o da verdade afinal não contemplada na trilogia francófila?

13 comentários:

  1. ANTEVISÃO

    "Quem diz que a História não se repete?"

    Prof. A. Carvalho Homem


    Entre desiludido e amargurado,
    sem que nada o console ou reconforte,
    Antero de Quental, desvinculado
    da Liga Patriótica do Norte,

    reconheceu que um dia não distante
    inevitavelmente a monarquia,
    já sem qualquer alento, agonizante,
    seus trunfos à república daria.

    Só que, conforme disse por escrito,
    um regime seria de malandros,
    sem nunca dar o dito por não dito.

    À descarada alguns, abertamente,
    abroquelados outros de escafandros,
    razão lhe deram, mesmo no presente!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  2. D. MANUEL II

    Com ele terminou a dinastia
    com outro Manuel iniciada:
    há quase nove séculos fundada,
    findou também com ele a monarquia.

    Previsto não estava que reinasse
    por ser filho-segundo, mas o certo
    é que o acaso quis ou Deus decerto
    que esse destino ingrato lhe tocasse.

    Renunciou ao trono muito moço
    e sem alarde, em paz, sem alvoroço,
    partiu para o exílio... de bom grado.

    No Panteão Real jaz sepultado
    ao pé do seu irmão, cujo lugar
    ele assumiu no ofício de reinar!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  3. UM JOVEM REI NO EXÍLIO

    Discretamente, de cabeça erguida,
    sem qualquer enxovalho popular,
    D. Manuel Segundo na partida
    foi simplesmente nobre e modelar.

    Leva no peito em sangue uma ferida
    que nunca mais havia de passar,
    uma chaga recôndita, escondida,
    que faz questão de para si guardar.

    Entregue aos seus estudos na Inglaterra,
    nem por isso, na sua solidão,
    deixa de ter na ideia a sua terra.

    Consigo morre toda a esperança
    de persistir a Casa de Bragança
    à frente dos destinos da Nação!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  4. Um fragmento de um artigo de Meira e Sousa, "Venha a Revolução", publicado em "O País" em 8 de Maio de 1907: "A monarquia que nos oprime e espezinha, que nos afronta e enlameia perante as nações civilizadas; a monarquia tirana e despótica que nos rouba e manda assassinar -está tremida e facilmente se derroca! Venha a Revolução! Portugal, ou se levanta em peso e se revolta implantando a república, ou vê morrer, em poucos meses, a sua independência! A revolução é fácil. A revolução faz-se num dia, numa hora, num instante! A luta pela República é uma luta pela vida. É o fim que nos espera com a monarquia! Façamos a revolução chegou o momento". Viu-se o resultado...:(

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  5. FIM DE UM SONHO!

    Entre os Vencidos da Vida,
    a par de Guerra Junqueiro,
    figura, logo à partida,
    o Rei D. Carlos Primeiro.

    Comunga dos ideais
    dos seus colegas de mesa
    que, sendo intelectuais,
    prestam culto à natureza.

    Tendo em mente o seu país,
    desejam todos, por certo,
    uma nação mais feliz.

    Um tiro, à vista da grei,
    disparado em carro aberto,
    pôs termo ao sonho do Rei!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  6. POR QUEM ELAS CHORARAM

    Luís Filipe, o príncipe encantado,
    olhos azuis como os da sua Mãe,
    cabelo louro, porte comparado
    ao do seu Pai, cujo perfil mantém,

    princesa não havia casadoira
    em toda a Europa das nações reais
    que linda, rica, amorenada ou loira,
    o não quisesse para os esponsais.

    Senhor de uma esmerada formação,
    em todos os sentidos que se queira,
    era a suma esperança da nação.

    Que grande Rei teria Portugal
    se uma perversa bala traiçoeira
    não fulminasse o Príncipe Real!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  7. HAJA VERGONHA!

    No centenário do regicídio

    Assim vai Portugal... achincalhado
    dentro de portas por vontade sua
    faltando apenas ver por todo o lado
    seu símbolo arrastado pela rua!

    Que deplorável foi no parlamento
    ser denegado um voto de pesar
    pelo modo cruel e violento
    como D. Carlos se mandou matar!

    E que dizer da sórdida baixeza
    com que a televisão à portuguesa
    reconstitui as cenas do homicídio!

    Perante os estrangeiros Portugal
    está-se a degradar por forma tal
    que parece buscar... o suicídio!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  8. O CRIME... ESCUSADO

    Ninguém me tira da mente
    que no regresso a Lisboa
    vindo de Vila Viçosa,
    D. Carlos tinha na ideia
    destituir João Franco,
    o verdadeiro culpado
    e primeiro responsável
    pela morte do Monarca
    e do Príncipe Real.

    Só assim se compreende
    o à-vontade do Rei
    viajando em carro aberto,
    aclamdo pela grei,
    a caminho do palácio.

    Foi a bala traiçoeira
    que lhe frustrou os desígnios
    que embora não comprovados
    não deixam de ser prováveis.

    Ninguém me tira da ideia
    esta vã suposição
    que em todo o qaso a favor
    o peso tem da razão!

    JCN

    aclamado pela grei,

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  9. TRÁGICO EPÍLOGO

    El-Rei D. Carlos com Mulher e Filhos
    no Terreiro do Paço, em carro aberto,
    com a coragem própria dos caudilhos
    enfrena o risco a peito descoberto.

    Sabe que anda no ar, por culpa alheia,
    uma ameaça de conspiração;
    o Monarca, porém, não se rodeia
    da mais recomendável precaução.

    Bravura, brio, intrepidez, denodo,
    estados de alma foram que o marcaram
    e em circunstância alguma lhe faltaram.

    Ouvem-se tiros, corre o povo todo,
    e de morte ferido o Soberano
    a vida entrega a Deus... caindo o pano!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  10. EPITÁFIO

    Glória a ti, D. Carlos de Bragança,
    intemerato Rei de Portugal,
    que deste o peito as balas na esperança
    de o povo aquietar na capital!

    Deixando o teu lugar de preferência,
    ou seja, o Paço de Vila Viçosa,
    para ao governo dar tua assistência,
    deram-te morte em hora tormentosa.

    Caíste fulminado, sem defesa,
    baleado por trás cobardemente
    colhido em carro aberto de surpresa.

    Glória a ti, que ficarás na História
    como um monarca intrépido e valente
    que o povo terá sempre na memória!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  11. VILÕES!

    Não há sabão que lave as vossas mãos,
    vis assassinos de hediondo crime:
    perante a História nada vos redime
    sob estatuto algum de cidadãos!

    Colocou Deus um dia o Rei Saúl
    à mercê de David com sua lança,
    o qual não consumou sua vingança
    por ele ter de ungido o sangur azul.

    Por mais que certa classe agora queira
    limpar o vosso nome ante a nação
    nada há que justifique a vossa acção.

    Além de que, como quem vai à caça,
    não se assassina a meio de uma praça
    um dos raros barões da Jarreteira!

    JOÃO DE CASTRO NUNEKS

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  12. D. PEDRO V:
    UM REI ENTRE ESTUDANTES

    Modesto, culto, estudioso e bom,
    é assim que o vejo, ouvindo as prelecções
    de Alexandre Herculano, cujo dom
    de historiador lhe prende as atenções.

    Entregue ao seu cuidado de reinar
    de acordo com a sua consciência
    sem sua competência ultrapassar,
    passou sua brevíssima existência.

    Com muito afecto amou sua Consorte
    que tão cedo o deixou, D. Estefânea,
    nada mais ocorrendo que o conforte.

    Que lindo foi, na terra das tricanas,
    ouvir dos estudantes, espontânea,
    a grita de académicos hossanas!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  13. AINDA D. PEDRO V:
    O REI - SOLDADO

    Adoro falar dele: é um soberano
    que muito estimo pela sua mente
    de elevada craveira e lado humano
    do seu carácter culto e complacente!

    Se todos os monarcas assim fossem,
    ainda hoje vigorava a monarquia
    sem pessoas haver que dela trocem
    com laivos de sarcasmo e de ironia.

    Morreu na flor da idade, lamentado
    por todo o povo que ele cativava
    pela nobreza com que se portava.

    Algumas vezes terá mesmo dito,
    o que não deixa, em si, de ser bonito,
    que a não ser Rei, queria ser soldado!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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