29 de janeiro de 2010

Que bonito 31!


A bandeira republicana, de vermelho sanguíneo, jazendo jus às suas convicções fundadas no ódio.


É preciso ter cuidado com a História que se escreve e que se lê. Às tantas estamos a aceitar dogmas e a repetir erros que se tornam instituições. O que se comemora a 31 de Janeiro? A maioria não sabe e confunde democracia com republicanismo, que as datas de 31 de Janeiro e de 5 de Outubro são antepassadas directas do 25 de Abril - o que é mentira. Que se celebre o regime, mas que ao mesmo tempo se formem cidadãos críticos e informados. Por isso, a propósito do aproveitamento do 31 de Janeiro como um movimento libertador, intrinsecamente "portuense" e que terá tido o apoio popular, sugiro a leitura da análise do historiador Rui Ramos, incluída na biografia de D. Carlos. Ao mesmo tempo, deixo um relato do jornalista do New York Times de então. Mostra uma cidade aflita, desejosa de se demarcar daquele movimento extemporâneo que misturava sentimentos patrióticos (xenófobos) com o desagrado de uma classe, e deixa perceber a influência nada local da intentona:

«Assim aconteceu o golpe de 31 de Janeiro de 1891 no Porto. Foi uma iniciativa em contracorrente. Deu-se quando o país, como reconheceram os Republicanos, estava outra vez na mais "completa tranquilidade, e numa cidade onde tinham pouca força. Teve sobretudo a ver com a história interna do Partido Republicano, sendo "mais dirigido contra o [directório] do que contra a própria monarquia". Em 1890, a agitação do ultimato não derrubou D. Carlos, mas José Elias Garcia. A 13 de Novembro, aparecera um manifesto em Coimbra, assinado por 120 estudantes revolucionários, a acusar os líderes do Partido Republicano de serem "velhos" acostumados à "tranquilidade". José Elias acabou por ser apeado do poder no congresso Republicano de Lisboa de 5 de Janeiro de 1891. O advogado Manuel Arriaga e o tenente Francisco Homem Cristo tomaram conta do partido. Era a vitória dos "revolucionários" sobre os "evolucionistas". José Elias resolveu então apanhar os revolucionários no seu próprio jogo. Para os embaraçar, animou uma conspiração no Porto, chefiada por um maçon, o advogado Augusto Manuel Alves da Veiga, e por um jornalista de escândalos, Henrique Santos Cardoso. O novo directório do partido foi mantido à margem. Mas se a conspiração progrediu, isso deveu-se menos "à iniciativa dos elementos civis Republicanos" do que ao "imprevisto concurso dos militares da guarnição do Porto", sobretudo os sargentos. O que os motivou? Segundo um deles, "um ódio fundo ao inglês - desde que me conheço", e a recusa em aceitar que o rei fosse "irresponsável", isto é, que a lei não fosse igual para ele. Para além deste patriotismo jacobino, no entanto, pesou mais uma lei de 17 de Janeiro de 1891, que dificultou a promoção dos sargentos a oficiais. Foi assim fácil de manobrar entre sargentos descontentes, levá-los para cafés cheios de fumo, onde se berrava abertamente contra a monarquia. […]

Nos dias seguintes, toda a gente tentou diminuir a importância do acontecimento. As mais destacadas figuras do republicanismo, incluindo o directório do partido, condenaram o golpe como uma aventura mais ou menos irresponsável. Até a maçonaria irradiou Alves da Veiga. […]

As manifestações de fidelidade dinástica também não foram óbvias. As ordens do exército censuraram sobretudo a violação da disciplina, a "luta fratricida" e o "crime de lesa-patriotismo". […] A Câmara Municipal do Porto, logo no dia 12 de Fevereiro , dirigiu uma mensagem ao rei a pôr as culpas na "doçura dos nossos costumes".»
RAMOS, Rui - D. Carlos. Lisboa: Temas & Debates, 2007, pp. 100-102

Oporto this evening is a city of rejoicing. The storekeepers have thrown down the barricades from the windows and doors of their houses, and everybody is congratulating everybody else that the insurgent outbreak was not so serious as people at first expected it would be.
New York Times, 1 de Feveiro de 1891

Severel proeminent men, named as being members of the insurgentes directorate, disavow any connection therewith Judge Soares and Banker Lute [Leite?] being among the number.
New York Times, 2 de Feveiro de 1891

As a result of the investigation into the recent revolt, the police officials report that they have obtained convincing proof that the insurgents were in league with spanish revolutionist. Among the proofs in the hands of the authorities are documents seized in the office of the Republica Portuguesa, wich include messages of congratulation received from spanish republican organizations, greeting the portuguese revolutionists as "brothers" who were on the eve of triumph.
New York Times, 5 de Feveiro de 1891

Sugiro, ainda, a leitura do ensaio de Nuno Castelo Branco: Porto 31 de Janeiro de 1891, ou o ensaio de uma constante portuguesa.

Aquela recriação histórica que se espera no dia 30 não passa, portanto, de uma enorme farsa que tenta impingir a ideia da participação cívica portuense que, como se vê pelas descrições acima, longe de ter acontecido. Pior, apresentará, ao olhos de quem assiste, os bons (republicanos revoltosos) contra os maus. O meu lamento vai para o triste papel do Ateneu Comercial do Porto, instituição respeitada da cidade, que alinhou nesta charada para agradar a meia dúzia de anciãos que confundem república e liberdade, esquecendo-se que este regime acolheu uma das mais longas ditaduras da História.

(Publicado n'A Baixa do Porto.)

4 comentários:

  1. AZUL E BRANCO

    Bandeira azul e branca dos começos
    da nacionalidade poortuguesa:
    tinha tão-só singelamente expressos
    os cunhos pessoais da realeza!

    Trazida pelo conde borguinhão,
    que a recebeu dos seus antepassados,
    tornou-se na bandeira da nação
    atravessando todos os reinados.

    Era de prata o fundo sobre o qual,
    pelas quinas depois continuada,
    a cruz azul estava "carregada".

    Por ter a cor da Virgem sua Mãe,
    que por sinal é a cor do céu também,
    esteve sempre Deus com Portugal!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  2. Pão e circo. Enfim, o costume. Adorava que no próximo domingo lhes caisse uma granizada em cima.

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  3. Também lá conto estar, porque afinal
    o que se questiona... é Portugal!

    JCN

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  4. A SAGA DA BANDEIRA

    Ficou todo o país alvoroçado
    ao informar-se que na capital
    um grupo juvenil havia içado
    a bandeira monárquica, real.

    Nos paços do concelho aconteceu,
    onde há cem anos, no balcão da frente,
    idêntico episódio sucedeu
    mas de sinal contrário ao do presente.

    Foi sol de pouca dura: a autoridade,
    depressa a removendo, abriu devassa
    para inquirir a culpabilidade.

    Independentemente da intenção
    que possa estar no cerne da questão,
    tudo acabou por ter montões de graça!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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