20 de janeiro de 2010

A Monarquia, por Alexandre Soares Silva


Um dos mais interessantes textos sobre o que é a monarquia, que não resisto a transcrever:

"Que espécie de pessoa se sente repelida pela monarquia? Escute: começamos todos monárquicos. Toda criança começa monárquica, se lhe explicarem o que é monarquia. Afogue num tanque a criança que for republicana. Seu filho de cinco anos é republicaninho? Mata.
Compreendemos a monarquia instintivamente. É por isso que contos de fadas têm reis e rainhas e não presidentes. Os irmãos Grimm teriam ataques de horror ante a visão de um único presidente sul-americano saindo de uma floresta. Uma coroa, um cetro: um bebê é capaz de perceber a glória disso. Acredito que até alguns animais são monárquicos, e que ursos e tigres têm alguma compreensão que devorar um rei é diferente de devorar um presidente, e melhor.
Há na história da humanidade uma lenta propensão à chatificação de todas as coisas. O que move a história é isso, e não o desejo de conforto, riqueza, poder. O chato quer deixar as coisas mais chatas. Ele não vai dizer isso, e ele nem sabe disso, mas é isso. E os que não são chatos não têm a paciência necessária de se oporem aos chatos – de enfrentarem sua minunciosa e incansável marcha rumo à chatice organizada e mundial. Todo chato é um milagre de perseverança. Não há chato tão cansado que não possa continuar atuando. O chato vence sempre.
E o que os chatos mais odeiam são os contos de fadas: a visão da vida que tinham aos cinco anos lhes parece a mais desprezível do mundo, e seus dias passam a ser dedicados à destruição disso. Ao longo dos séculos, conseguiram muitas vitórias, os chatos. A história da humanidade é a história da lenta substituição dos contos de fadas pelo romance sociológico moderno: Rubem Fonseca contra os irmãos Grimm.
Começamos vivendo em contos de fadas, em um mundo violento e terrível e algo miraculoso. Mas os chatos do mundo foram odiando um a um os elementos de contos de fada, e acabando com eles um a um. Nos contos de fada há monstros: eles se esforçaram para acabar com a crença em monstros. Nos contos de fadas há reis e rainhas: eles acabaram com a monarquia. Nos contos de fadas há condes, condessas, marqueses: acabaram com a aristocracia. Nos contos de fadas há pobres, vendendo fósforos na neve ou trocando vacas por feijões mágicos: e até com os pobres querem acabar, bando de republicaninhos socialistazinhos pro-quotas anti-globalização paspalhos.
Acabada a monarquia, a aristocracia e a crença no sobrenatural, olhem os chatos continuando sua luta contra tudo o que é way cool: contra a pornografia, contra videogames, contra a televisão (semana-sem-TV my ass, antes um milênio sem vocês), contra a violência no cinema, contra o cinema americano, contra quadrinhos, contra a Inglaterra primeiro quando ela era the coolest place, e contra os Estados Unidos depois, quando eles se tornaram the coolest place; contra o enredo no romance, contra a melodia na música, contra a rima na poesia, contra a figuração na pintura, contra a beleza nas artes, contra lutas de vale-tudo, contra boxe, contra drogas, contra expressões em outras línguas, contra o consumismo, contra o elitismo, contra John Wayne, contra a riqueza, contra a pobreza, contra viagens dispendiosas e desnecessárias à lua, e contra, sim, o Vaticano.
Olham a beleza do Vaticano e pensam no dinheiro que custou e custa, e tudo que conseguem pensar é que é preciso pôr aquilo abaixo para construir um templo positivista – baldaquinos sendo substituidos por pilotis – onde se cultue uma nova religião horizontal e humanista, e mais um adjetivo qualquer que era tão chato que eu nem ouvi. Ah, sim, igualitária. Sure. Uhuh.
O Vaticano é uma das últimas manifestações na terra da glória dos contos de fada. Os inimigos do Vaticano sabem disso, eles concordam: vivem de comparar a religião a “contos da carochinha”, para eles o termo mais desprezível que concebem. Há uma única guerra contra os contos de fada, que é uma guerra contra Deus; começada no jardim de infância pelas crianças mais chatas do mundo.
Não vão sossegar enquanto houver uma única coisa interessante sobre a terra. Irão dentro das casas apreender o último autorama, o último nunchaku. Escrevem manuais de economia nos quais apresentam o dilema da escolha entre fabricar canhão e fabricar manteiga. Por favor, para quem isso é um dilema? Quer maior prova da sua infalível propensão à chatice? Quem não daria, alegremente, todos os seus potes de manteiga para ter um canhão em casa?"
Copiado daqui.

1 comentário:

  1. RAZÃO E SENTIMENTO

    Não é questão de mera ideologia
    optar pela república electiva
    ou pela hereditária monarquia
    ou qualquer outr forma alternativa.

    Cada sistema tem suas virtudes
    e suas pontuais perversidades,
    estando em causa mais as atitudes
    que a natureza das modalidades.

    À falta de argumentos concludentes
    em contra ou a favor de alguma delas
    deixemos de forçar as nossas mentes,

    dando a palavra, acima da razão,
    perante estas vertentes paralelas,
    à voz sentimental do coração!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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