26 de janeiro de 2010

Da causa da decadência dos portugueses: o Riso.





"O que antigamente chamavaõ em Roma Aedicula Ridiculi, era a Ermida, ou Capella do Riso, dous mil passos de Roma pela porta Capena; foy edificada em memoria da fugida de Annibal, quando pelas grandes chuvas, e borrascas se vio obrigado a levantar o sitio, e os Romanos zombáraõ delle com grandes risadas. Naõ foraõ os Romanos os primeiros, que do Riso fizeraõ hum Deos. Na vida de Lycurgo escreve Plutarco, que este Legislador lhe levantára em Lacedemonia huma estatua, e os Hypaheos de Thessalia, todos os annos lhe offereciaõ sacrificios, como tambem os Romanos, na Primavera com grandes gargalhadas. Faz Pausanias mençaõ de hum Deos do Riso, a que os Gregos chamavaõ Theos Gelotos. "
Exarado do Vocabulário, de R. Bluteau (1712-1728).



Nunca como nos últimos 5, 10 anos se riu tanto em Portugal. Todos os dias aparece um motivo de gracejo, ou um gracejo dito por qualquer motivo, declamado por um dos inúmeros comediantes que todos os dias desfilam nos meios de comunicação.

Mas o movimento não é novo. Em finais do século XIX, entre a instabilidade, a conspiração e a sensação de declínio, ria-se; ria-se muito. Todos riam, da ralé ao rei, do sacristão ao bispo, do radical ao conservador. A comédia sempre foi um dos nossos vícios. Juntamente com a sodomia, o laxismo, a beatitude. Antero de Quental, na sua obra maior sobre a causa da decadência dos povos peninsulares afirma que «Os romances picarescos espanhóis e as comédias populares portuguesas são irrefutáveis actos de acusação, que, contra si mesma, nos deixou essa sociedade, cuja profunda desmoralização tocava os limites da ingenuidade e da inocência no vício». Mas não avançou muito mais. Esqueceu-se de dizer que o vício maior era o rir. Qualquer português é um potencial comediante. Talvez mais os homens, do que as mulheres. Ao «vai-se andando» feminino segue-se o piropo masculino, rude, bestial, sexual. Qualquer feito nosso anula-se numa piada.

Aquele Zé Povinho barbudo, vermelhão, borracho e feio é, realmente o melhor ícone nacional. Revela o mais belo do carácter da maioria dos portugueses: está sempre a mostrar os dentes, embevecido num gracejo vulgar, quando não sórdido. A melhor comédia faz-se sempre com a desgraça, como sabemos e, bom, ainda que tal não seja exclusividade lusa, revela-se cá em infindáveis variações anedóticas sobre acidentes, desgraças, catástrofes. Não sei se alguém se riu logo a seguir ao Terramoto de 1755, mas com certeza muito se gargalhou à conta de tombos, amputações e desesperos que se tornaram lubricidades. O trágico e o cómico andaram sempre de mão dadas. Mesmo os mais propensos à sisudez, como certos intelectuais do decadentismo de oitocentos, inoculavam nos espíritos mais cultos, uns gracejos ou remoques. Alexandre Herculano, à cabeceira da morte terá dito que este país dava vontade de morrer. O povo, esse deliciava-se com o escabroso, com o mais leve desarranjo da rotina. O riso era e é o lenitivo, mas em excesso torna-se psicotrópico. Estamos cada vez mais entorpecidos e a risota é uma das causas da nossa queda - e olhem que não falo metafórica ou metafisicamente: o tempo que despendemos a rir (não conheço estatísticas mas seriam com certeza reveladoras) são minutos, horas, dias preciosos para dar um alento substancial à economia e à produtividade. Rimos em excesso e ainda assim não somos felizes. O que se passa então?

Parece que nos portugueses o riso é como um formigueiro que paralisa as pernas. Como ninguém leva nada a sério, não há empenho e como os sisudos são vistos com desconfiança, raramente são respeitados. Através da comédia tudo se banaliza e, como a maioria dos comentadores são, hoje em dia, comediantes, nada escapa ao véu desculpabilizador do gracejo: - AH! Vejam, aquele político é um corrupto!AHAH! bem haja quem é esperto!HAHA! - A sátira foi, noutros tempos, uma forma de combate político e ideológico, mas em Portugal é, nos últimos anos, uma forma de passividade. De resto a sátira portuguesa foi sempre passiva, quase nunca interventiva. É maliciosa apenas no seu sentido sexual, mas extremamente permissiva.

O jornalista russo Ilya Ehrenburg terá escrito que o anti-semitismo começou com piadas obscenas ditas nas cervejarias de Munique. Não poucos conflitos começaram com tiradas menos felizes que se converteram em tragédias. Dificilmente o nosso vasto alfobre de anedotas racistas, chauvinistas ocasionará uma ditadura feroz como a do nacional-socialismo alemão da década de 1930. Nem este breve ensaio é uma apologia à sisudez. Mas enquanto rimos, um mundo sério, arrumado e empreendedor vai desaparecendo.

4 comentários:

  1. PENANDO E RINDO

    Infelizmente agora os portugueses
    deixaram de se rir: não têm vontade;
    é que têm sido tantos os reveses
    que se evadiu a sua alacridade.

    Andam tristonhos, de cabeça baixa,
    metem-se em casa a ver televisão,
    saindo à rua só para ir à caixa
    a fim de receber sua pensão.

    Presentemente, nestas condições,
    somente os mentecaptos não desistem
    de rir-se sem saber por que razões.

    Autarcas, deputados e afins,
    objecto de anedóticos pasquins,
    a rir-se de si próprios não resistem!

    JOÃO DE CAS TRO NUNES

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  2. RIR À SOCAPA

    Que um senador romano não se risse
    por ser contrário à sua gravidade,
    piamente acredito, ainda que ouvisse
    um dito da maior alacridade.

    Mas que Jesus nunca se houvesse rido
    em toda a sua vida humanizada,
    essa, a meu ver, não faz nenhum sentido
    nem me merece crédito... por nada.

    Como é que não havia de se rir
    entre as crianças que, para o ouvir,
    à sua volta às vezes se juntavam?

    Estou a vê-lo a rir-se intimamente
    dos fariseus que lhe faziam frente
    e, confundidos, dele se afastavam!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  3. Quem não te conhece e lê este texto, até pensa que és sisudo...LOOL. Eu cá acho que os portugueses fazem bem em rir. Eu gosto. Dá saúde e serve para esquecer o que está menos bem!

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  4. HUMORISMO E HUMANISMO

    À memória do humanista inglês Sir Thomas More,
    lembrando o seu "bom humor" perante o infortúnio.

    Rir é saudável; rir à gargalhada
    é um dom dos deuses; para toda a gente
    nada melhor, perante um incidente,
    do que uma terapêutica risada.

    Rir descontrai, desanuvia a mente,
    retemperando-a em todos os sentidos
    e sem ter precisão de comprimidos
    bem faz ao corpo quando está doente.

    Brincando, há que saber falar a sério,
    dizer verdades com jocosidade
    sem descambar, contudo, no impropério.

    Nada há mais salutar que o humorismo
    que ao fim de contas, na realidade,
    não passa de uma forma de humanismo!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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