29 de dezembro de 2009

Memórias destiladas.

Acontece a todos.
Primeiro as lembranças aquecem-nos de tal forma que exacerbam os sentidos; depois, um a um, os sentidos vão perdendo a ligação com aquelas lembranças e, finalmente, como um depósito no fundo de uma velha garrafa de Porto, ficam pequenos excertos do que fomos e do que sentimos.
De quatro anos passados em Braga, recordo-me hoje do aroma das flores das laranjeira no Largo da Senhora a Branca. Foram anos intensos e não deixa de ser estranho que se resumam a aromas, a um ou outro dia, a uma passagem, a um gesto... No entanto, no final, a única coisa verdadeira é um aroma...
Um destes dias fui a Paris, sem qualquer vontade de o fazer. Não. Risco "sem qualquer vontade de o fazer" e substituo-o por "sem que algum dia tivesse realmente vontade de o fazer". Continua a parecer forte de mais, não é que nunca quisesse ir a Paris, mas a imagem que construí de Paris não era suficientemente sólida para me obrigar ao caminho. Fui, porém.
Dessa "Paris pré-visita" havia mil preconceitos: a divisa atabalhoada da Liberdade, Igualdade e Fraternidade que tantos apregoam mas são capazes de cumprir, a sobranceria (injusta, bem sei) dos franceses e sobretudo dos parisienses, como todos os habitantes de todas as capitais, e, acima de tudo, uma cultura longe da matriz com que me edifiquei.
A primeira imagem da cidade foi de desilusão. Nunca devemos chegar a uma cidade à noite. Devemos fazê-lo preferentemente ao amanhecer, quando as pessoas despertam para um dia de rotina. Desta forma não nos sentimos estranhos. Assim que cheguei enfiei-me pelas entranhas sujas da cidade e atravessei-a em pouco menos de uma hora. Acordei no dia seguinte para uma avenida como as avenidas do meu imaginário parisiense. Fiz, então, uma sondagem arqueológica na minha mente e estava tudo lá: os plátanos, o céu cinzento, - carregado mas, ao mesmo tempo luminoso -, os telhados uniformes e a sobranceria. Mas em tudo havia um apetite voraz que não sentira antes.
Tive muita sorte de não querer para gostar verdadeiramente. E Paris fascinou-me.
Hoje, alguns dias depois do regresso, é óbvio que me lembro do gosto dos quartiers, de Notre Dame ao amanhecer, da linha de metro à superfície assente em pilares de granito e aço, da Torre, das cores e cheiros frios de Montmartre mas, acima de tudo, de algo que ficará como sedimento no fundo da memória: o negro veludo dos corvos. Estavam por todo o lado. Nos umbrais, como no poema de Poe, nas áleas do Pére Lachaise, junto aos jardins dos Inválidos.
Depois, num registo menos inconsciente e mais simbólico, ponho-me a pensar no percurso que Saint Denis terá feito, desde do monte do seu martírio (Montmartre) até ao sítio onde mais tarde repousariam os corpos de Luís XVI e da sua esposa Maria Antonieta. Une-os um comum destino fatídico: a decepação. Não é morbidez, é apenas, e talvez, uma lembrança de como os povos são incapazes de escapar à sua memória.

6 comentários:

  1. Ah Paris, Paris, tenho que lá voltar...

    BOM ANO 2010... grande abraço.

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  2. Deve voltar! Farei o mesmo, um destes dias.
    Bom ano, cara Amiga

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  3. "Tive muita sorte de não gostar para gostar verdadeiramente". Gostava de filosofar sobre esta frase porque não concordo inteiramente e queria perceber o teu ponto de vista.

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  4. UM AR DE TI

    Coimbra,Góis, Gouveia, Compostela,
    Paria e Salamanca, Barcelona,
    Paris de novo, Lorelei e Bona,
    tende pena de mim, falai-me dela!

    Falai-me dela, terras africanas,
    Sá da Bandeira e ruas de Luanda,
    o Luxemburgo, a Bélgica, a Holanda,
    falai-me dela, ó praças castelhanas!

    Em todos estes sítios e cidades,
    pensões, hotéis e universidades
    se sente ainda que esiveste lá...

    Em vão não foi, amor, que ali passaste,
    deixando com razão, por onde andaste,
    um ar de ti... que não se extinguirá!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  5. VERSALHES

    De mão dada comigo ou braço dado,
    irradiando imensa simpatia,
    por esse mundo fora, lado a lado,
    deste vazão à tua fantasia.

    Casas de moda, exposições de tudo,
    montras, museus, estâncias de lazer,
    solenidades e sessões de estudo,
    não me cansava de levar-te a ver.

    Que linda estavas em Rocamador:
    deu-me vontade de tirar do andor
    Nossa Senhora e lá te pôr a ti!

    Por fim Versalhes: nunca por ali,
    fosse qual fosse a hora de visita,
    passou mulher alguma... tão bonita!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  6. PEGADAS TUAS

    Os sítios, meu amor, por onde andaste
    na minha companhia, de mãos dadas,
    não mais hâo-de esquecer que lá passaste
    bastando ver no chão tuas pegadas.

    Ficou de ti, em todo o ambiente,
    que o tempo não consegue dissipar,
    uma espécie de aroma que se sente
    no simples acto de se respirar.

    Perdura ainda a luz que irradiou
    do teu risonho olhar que patinou
    de azul e ouro as respectivas casas.

    Quando soar o fim universal,
    da tua natureza pessoal
    hão-de restar ainda algumas brasas!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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