11 de outubro de 2009

Já não há presidentes como Calisto...

Em suma, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de empecer a
roda do progresso, com tanto que ele não lhe entrasse em casa, nem o
quisesse levar consigo.

Prova cabal de sua tolerância foi ele aceitar em 1840 a presidência
municipal de Miranda. Na primeira sessão camarária falou de feitio e
jeito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do século XV
levantado do seu jazigo da catedral. Queria ele que se restaurassem as
leis do foral dado a Miranda pelo monarca fundador. Este requerimento
gelou de espanto os vereadores; destes, os que puderam degelar-se,
riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a
humanidade havia já caminhado sete séculos depois que Miranda tivera
foral.

-Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os
homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as
mesmas.

-Mas... retorquiu a oposição ilustrada, o regime municipal expirou
em 1211, sr. presidente! V. ex.a não ignora que há hoje um código de
leis comuns de todo o território português, e que desde Afonso II se
estatuiram leis gerais. V. ex.a de certo leu isto...

-Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!

-Pois seria útil e racional que v. ex.a aprovasse.

-Útil a quem? perguntou o presidente.

-Ao município, responderam.

-Aprovem os srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu
despeço-me disto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e
governo, segundo os forais da antiga honra portuguesa.

Disse, saiu, e nunca mais voltou à câmara.

Camilo Castelo Branco, A queda de um anjo, 1866

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