22 de outubro de 2009




Há coisas que só compreendemos se as experimentarmos. São como os sentimentos. Só seremos adultos depois de termos conhecido a alegria, a tristeza, a saudade, a amizade verdadeira, o amor e o ódio. Porque é que à medida que vamos envelhecendo, nos vergamos a um certo silêncio? Por que experimentámos já o sabor doce ou amargo de tantas palavras de tal forma que nos recusamos a dialogar com aqueles que o não fizeram. Por isso, depois de ter percorrido pela primeira vez o Caminho de Santiago, em 2004, voltei silencioso. Durante muito tempo quis deixar em letra de forma a minha experiência, narrar os dias e as noites passados naquele percurso de sete dias, mas nunca, até hoje, e mesmo depois de ter repetido o trilho, consegui voltar a ele com a vivacidade que desejava. E no entanto poucas ocasiões terei na minha (nossa) tão curta existência terrena que se comparem à experiência de nos superarmos dia após dia, percorrendo locais que nos são estranhos, caminhos que nos magoam, para chegar a um ponto do espaço que é, tão-só, um reflexo do nosso lugar interior. Por isso talvez não seja tão tolerante como desejaria quando ouço falar (de forma tão leviana) de fé e de espiritualidade. Não se trata do vociferar contra Deus e os deuses usados, afinal, como bodes expiatórios da culpa de uma humanidade essa sim é má, rancorosa e na qual não nos podemos fiar. Mas por mil e uma razões gostava que Saramago, todos os saramagos do mundo, nós, eu e tu, pudéssemos caminhar a todas as Compostelas do mundo. Não há nada como um esforço, como o desejo de prosseguir para efectivamente compreender o valor da nossa existência. Gostava de, um dia, escrever sobre a minha experiência, a do Caminho Português, e sobre a que tenciono cumprir no Caminho Francês. Mas dificilmente vos explicarei, por palavras, a partilha, a comunhão, a sensação inigualável de, no Caminho, sermos todos iguais. E, por muito que tente, acho que não consigo descrever-vos a impressão de atravessar uma montanha com o corpo encharcado de tal forma que a roupa não faça sentido, ou entrar no Obradoiro, repleto de gente, pensando que nunca, desde o meu nascimento - e provavelmente na hora na minha morte -, nunca estivera nem nunca estarei tão sozinho. Às vezes volto a essa memória como a um bálsamo.

3 comentários:

  1. Pois é, mas para podermos viver experiências dessas, é preciso sermos permeáveis ao transcendente, ao divino e isso só se consegue quando tivermos a nossa mente e o nosso espírito livre e desprotegido da couraça da arrogância e das certezas absolutas. Só despidos de todas as carapaças com que pretendemos vestir o orgulho da nossa autosuficiência é que estaremos prontos para vivermos e sentirmos no nosso íntimo experiências inefáveis como essas.
    Percorrer esses caminhos de Santiago talvez fosse um desafio a lançar não só a Saramago, mas a tantos saramagos que percorrem outros caminhos inviesados deste nosso peregrinar terreno.
    José Cerca

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  2. Caro Amigo,
    É assim mesmo, como refere. Para acolher a transcendência é preciso querer. E hoje, basta olhar à nossa volta, estão todos dispostos a acolher sensações rápidas, concretas. O espiritual, a Fé, é demasiado sacrificial.

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  3. O Próprio discurso de Saramago revela o quanto gastou o tempo em vão e como irá morrer por certo amargo como os saramagos...nunca subiu a montanha!

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