5 de agosto de 2009

O Desnorte.

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Uma primeira característica da retórica de José Sócrates: quando inaugura uma escola, um tribunal, quando celebra as virtudes de uma iniciativa do Governo ou premeia os resultados de tal grupo da sociedade civil, uma ideia surge sempre, reiterada até à exaustão - a ideia de que aquela "é a obra necessária, que vem na hora certa para a modernização do país"; era daquilo "que nós precisávamos, e de que vamos precisar"; e que toda a acção do Governo "vai naquele sentido, porque é o sentido certo, e devemos insistir cada vez mais em acções e iniciativas daquela natureza". E assim por diante batendo sempre na mesma tecla, de tal maneira que ali, a propósito daquele pequeno acontecimento (ou grande, como a inauguração de uma barragem, por exemplo) se concentra todo o sentido da governação socialista.
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Talvez seja esta uma das grandes originalidades de um discurso que, por outro lado, repete sempre as mesma ideias, quase com as mesmas frases, literalmente medíocre, lexicamente pobre, sem rasgos nem surpresas: é o que está constantemente no presente mítico, transformando a obra mais banal num acontecimento de relevância mítica, exemplar, modelar.
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Rejeitando o passado degrado, integrando nele o futuro, o discurso socrático do presente dirige-se a um auditor que suspendeu as suas ideias políticas, as suas escolhas partidárias, os seus conflitos sociais, que neutralizou o seu ser ideológico para se ligar directamente ao chefe, enquanto simples cidadão abstracto.


José Gil - Em busca da identidade - o desnorte.

É realmente uma pena que poucos leiam e entendam José Gil.

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