3 de agosto de 2009

E o agora?

Há já alguns anos que vem crescendo o número de abaixo-assinados, petições ou manifestos que me chegam via correio electrónico. Grande parte destes documentos são contra algo, outros a favor e a maioria incide sobre questões relacionadas com o património, como os recentes casos dos Museu dos Coches e do Museu de Arte Popular. Embora considere este tipo de iniciativas como uma forma de participação cívica, admito agora que o seu valor decresce de dia para dia. Primeiro, porque depois de assinar tais petições, nada mais sei sobre o seu efeito prático. Foram ouvidos os seus promotores? Foi respeitada a assinatura de todos os que nelas intervieram? Um exemplo: a última que assinei (em consciência com os valores em que acredito) foi a que pedia a anulação do Acordo Ortográfico. Mas parece que o Governo e o Parlamento fizeram ou têm feito tábua rasa desta petição, não obstante atingir um impressionante número de subscritores. Estou por isso um pouco farto de petições para abrir museus, salvar colecções de arte ou ajudar hospitais - tudo acções que um Estado Moderno, preocupado e moralmente actuante deveria assegurar aos cidadãos que pagam os seus impostos e servem o funcionamento do Estado Providencial. § Como cidadão, mas sobretudo como historiador há algo que me preocupa acima dos edifícios, e do passado mais antigo: a memória presente. Porque é que ninguém se preocupa em salvar a oralidade enquanto capital histórico e documental? Porque é que a intelectualidade se preocupa tanto com os Museus de Lisboa e esquece as vias férreas, o património industrial com menos de cem anos, a moda dos nossos pais e avós? O grande drama da morte da História é o abismo que se faz entre a nossa vida e a de 3 ou 4 gerações atrás. A Torre do Tombo toda e o seu espólio valem tanto como os cem anos que antecederam as nossas vidas. E ninguém parece dar importância a isso. Os historiadores do futuro vão ficar de mãos vazias. E não há petição que o impeça.

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