4 de julho de 2009

Um post em dois tempos e meio.

I

Não é por falta de tempo. É por falta de interesse. Este monólogo, umas vezes catártico, outras exercício exorcista, pouco mais alimenta que a necessidade de desenvolver temas que acabam por morrer na praia. Não sou comentador, ou seja, não corro a comentar notícias, nem a alimentar especulações de polémicas frescas. Aliás, se o fosse não teria mãos a medir, tal a torrente, tal a catadupa de casos caricatos ou situações bizarras que este país produz diariamente. Sempre fui um free-lancer, auto-didacta orgulhoso que tem o gosto de mostrar a quem mais gosto aquilo de que gosto. Por isso  o Obliviário não aparece entre os primeiros nas estatísticas, nem nos recortes blogosféricos dos jornais. Mas é bom. É bom conquistar um lugar discreto, quase um cantinho aconchegante neste mundo estranho e às vezes distante que é a internet. 

II

O que é democracia? - pergunto aos meus alunos. Eles dizem-me que é algo teórico e eu tento convencê-los do contrário. Mas contradigo-me e sinto-o ao seguir atentamente a política portuguesa. Os movimentos de bastidor, os negócios, os subterfúgios, as mentiras. Fala-se em qualidade de democracia e imputa-se aos políticos uma melhoria da mesma, mas esquecem-se do essencial: os cidadãos, a base de uma pirâmide que não se sustenta sem cultura e sem educação. Para mim a democracia pode melhorar se melhorar o sentido de ética, que falta aos jornalistas, que falta aos funcionários e a todos que partilham uma responsabilidade colectiva no dia-a-dia. Aliás, a comunicação social atiça o incêndio da discussão, mas talvez seja ela própria o incendiário e a chama inicial. Como Quarto Poder, (em alguns casos, Poder Único) modela a consciência dos menos afortunados pelo interesse e pela crítica. Como a maioria dos universitários, pouco criativos, menos ainda conscientes e cada vez mais dependentes do oportunismo, os jornalistas são, na sua maioria, medíocres e pouco exigentes. Os restantes, politizados, vão segurando o bastão do poder e manejando esta gente amorfa. Sim, foi o gesto de Manuel Pinho que decidiu a sua própria fortuna, mas é a imagem moldada pela comunicação social que torna o facto mais ou menos relevante. A responsabilidade da democracia deve ser repartida por todos. Ela não é dos políticos, nem dos jornalistas. É nossa.

Uma nota: o facebook e o twitter são as ferramentas do momento e permitem criar espaços mais intimistas de troca de ideias. É um dos motivos pelo qual o Obliviário tem estado mais silencioso e vazio. Não obstante o facto de ter já comentado quer num quer noutro a morte de Michael Jackson não posso deixar de acrescentar algumas linhas a este respeito. Li, num tópico da internet, uma frase grosseira, "proferida" num tom irónico por um psicólogo (!) que dizia "gostar muito de Carlos Cruz mas que este não chegava aos calcanhares de Michael Jackson". É óbvio que a afirmação, um tanto ou quanto rude (e irresponsável, se pensarmos que foi proferida por um cientista) apelava para o facto de ambos serem acusados de crimes semelhantes, relacionados com o abuso sexual de menores. Cá está um exemplo de como, em Portugal, tudo passa pelos media: a política, a cidadania, a democracia, a justiça, começa e esgota-se nos jornais e na televisão. O processo Casa Pia ainda não terminou e já há culpados. É-se acusado, julgado e condenado virtualmente; partidos sobem e descem por estatísticas que, se não são manipuladas, são-o com certeza tendenciosas e aplicadas no "momento certo". Enfim, Michael Jackson, que mais do que ninguém beneficiou da imagem e da sua manipulação, viveu sob o pêndulo dos media. Foi glorificado e crucificado e, na morte, reabilitado a ícone maior. A pedofilia (crime pelo qual não chegou a ser condenado) é um delito abominável. Mas as suas supostas vítimas, como as supostas vítimas de Carlos Cruz, ficarão para sempre anónimas. Esta é a hipocrisia  ou a realidade do mundo em que vivemos. Não podemos combater a biologia humana, mas podemos crescer em crítica e valores. E isso é que é importante. As grandes coisas só são grandes se lhes dermos importância.

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