16 de julho de 2009

"Tempo de morrer": Eclesiastes, 3:2.


Todas as revoluções têm os seus mártires e, como em todas as batalhas, há mártires vencidos e mártires vencedores. Os vencedores sobem ao panteão dos deuses, coroados de louros. Os outros apodrecem sob lápides lisas. Da Revolução do 5 de Outubro de 1910 saíram mártires gloriosos, homens que hoje seriam anónimos e que só subiram as escadas do Olimpo porque a conjuntura foi favorável aos seus pares. Lembro por exemplo Miguel Bombarda, um suicida que hoje é comemorado na toponímia nacional apenas por ter sido republicano. Ora para essa "gloriosa" revolução acontecer houve sangue derramado: mataram o chefe de estado e o seu filho e quem saiu glorificado? Os algozes deste acto - não só Costa e Buiça, autores efectivos do crime, mas Aquilino Ribeiro e outros cujas mãos estavam tão ou mais sujas de sangue do que as daqueles dois pobres coitados arrancados à ignorância bruta por fanatismos de certos mandantes, instruídos na arte de bem escalar a pirâmide social. § No dia 6 de Outubro de 1910 Lisboa era republicana e o país foi-o sendo por telégrafo, não por convicção. Aliás, uma pequena parte dos obreiros da República seria republicana por desejo intrínseco. Como muitos dos adesivos ou "vira-casacas" que surgiram na política pós-1910, ser republicano era mais uma obrigação, do que uma aspiração com desígnios cívicos. Algo semelhante aconteceu depois do 25 de Abril de 1974. Há uma tendência inata para uma adaptação camaleónica na política portuguesa. Quem é hoje pode não ser não ser amanhã e, lá diz o lugar comum, mas invertido (porque estamos em Portugal) em política o que parece não é. §  Por isso os "heróis", às vezes mudam, conforme os ventos e poucos têm a coragem, a verticalidade de manterem-se fiéis aos seus princípios, mesmo que isso lhes custe a dignidade. Foi o caso nacional de Henrique de Paiva Couceiro, entre outros. § Mas hoje venho recordar uma figura algo excêntrica. Excêntrica por ser uma mulher num meio que se poderia pensar essencialmente masculino (é uma fífia, contudo, em Portugal, por exemplo, está por fazer uma História da política e da ideologia no feminino) e "excêntrica" pela idade com que faleceu, depois de ter perpetrado uma acção que lhe valeria a imortalidade. Refiro-me a Charlotte Corday, uma aristocrata francesa que aos 25 anos matou o monstro demagogo e autoritário chamado Jean-Paul Marat. § Jean Paul Marat era um louco, (se não patologicamente louco, pelo menos ideologicamente insano) a quem foi oferecida a pena de morte como método pedagógico da revolução. Ele não era apenas um dos "amigos do povo", era o Leviatão construído com os membros gigantes do povo à frente de um cérebro desproporcionado para tamanha besta. No furor da Revolução de 14 de Julho de 1789 e dos anos que se lhe seguiram, o que interessava menos ao povo era igualdade, fraternidade e liberdade. Uma vez solta aquela Besta disforme, ela clamava por sangue e na igualdade da biologia dos actos, o Povo, - aquele pretenso Povo fraterno - não queria sentar-se no trono, nem governar em consciência. Queria os veludos de Versalhes. Não podendo tê-los, contentava-se com sangue, que é na sua cor e na consistência das golfadas muito idêntico ao toque suave do veludo. § Charlotte a quem muitos imputam um papel menor, talvez  admirados com a "fragilidade" do seu género, executou Maray e fê-lo consciente do seu papel, do dos seus antepassados e, com certeza dos valores que herdara. Não se tratava de vingar facções do momento, mas deixar a mensagem clara e simples que a Revolução tomara o caminho da Morte. Era a única saída. Então, a Serenidade mata a Demagogia. Marat, banhado para aliviar o mal que lhe corrompia a pele, sucumbe a uma punhalada da Vestal. Ela é a verdadeira Mariana, símbolo de uma execução taliónica mas nem por isso menos justa aos olhos de uma época. J'ai tué un homme pour en sauver cent mille, dissera frente a um julgamento exemplar montado contra a "inimiga do povo". Se salvar uma vida é salvar a humanidade, o acto (hediondo é certo), do homicídio de Marat não pode ser visto como um exercício de salvação histórica?

1 comentário:

  1. Matar matar é hoje uma ideologia...matar o que não convém...o que não serve os fins hediondos; os crimes políticos...os extermínios raciais linguísticos, culturais, pela usurpação da liberdade.Subverter para reinar matar para ascender! Calar para corromper!
    Charlotte Corday....matou Marat poupou cem mil valeu pelo simbolismo histórico!

    ResponderEliminar

A Democracia exige Responsabilidade individual. Nicks, anónimos ou mensagens insultuosas demonstram faltam de auto-estima, comportamentos associais e incapacidade de lidar com a opinião alheia e, como tal, não serão publicados.