25 de julho de 2009

O Ministro da Cultura e as energias renováveis: uma ligação improvável?




Assisti, ontem, na RTP2, ao programa "Diga lá Excelência", em que o convidado foi o Ministro da Cultura, indíviduo pouco conhecido, governamentalmente discreto e cuja imagem de marca são os óculos "fundo de garrafa". Não sei se por miopia ideológica, por ignorância ou por lealdade ao grande líder, o Dr. Pinto Ribeiro vinha armado até aos dentes com gráficos montados sobre k-line. Vinha justificar o injustificável, ou seja, porque razão ocupava aquele cargo. Desconheço a formação de base do Ministro (dizem-me que é direito) mas o pouco que percebe de cultura compensa em teoria económica. As jornalistas, visivelmente pouco preparadas para o ataque contabilístico do "senhor 1%" (a mítica meta da percentagem do orçamento de estado dedicado à cultura que foi uma dos principais temas de conversa), viram-se confrontadas com  um propagandista. Tudo foi relativizado: a falta de planificação do ministério, a ausência de visão, o desnorte em casos como o Museu dos Coches, etc. Até os manifestos e as opiniões críticas de sectores e indivíduos ligados à cultura nacional foram reduzidos a pó pelo senhor ministro. Para ele tudo se resume a dinheiro e património. O dinheiro consegue-se com recurso a parcerias. O património, bom, esse continua a cair aos bocados, não obstante o esforço do Dr. Pinto Ribeiro em apresentar listas, números e uma carta de recomendação da Unesco. Mas o discurso ideológico, aquele que parece bebido em longas horas de lavagem cerebral frente a um vídeo com conselhos do Grande Líder, atingiu o pico quando o Ministro da Cultura começou a dissertar sobre o futuro Museu da Viagem ("da Globalização", "das Descobertas", "dos 1.ºs descobrimentos", "chamem-lhe o que quiserem"). Segundo ele, essa obra extraordinária que está para surgir vem confirmar a longa vocação dos portugueses para a utilização das energias renováveis. Sim! Isso mesmo, energias renováveis! Num rasgo de genial bestialidade o dr. Pinto Ribeiro afirmou que os Descobrimentos tinham sido realizados utilizando a água e o vento - uma "viagem democrática" que se contrapõe às viagens modernas que necessitam das energias fósseis (ao que parece, e segundo ele, "não democráticas"). Eu fiquei algum tempo a divagar sobre esta conversa absurda. Depois dei comigo a relembrar a História nacional e internacional e pensar que, talvez, me tivesse escapado algo. Não. De facto os Descobrimentos foram feitos pelo mar afora, à custa dos ventos e das marés. Se os marinheiros de então achavam este sistema ecológico e democrático, isso não sei. Afinal de contas era o único que conheciam. O senhor Ministro da Cultura, contudo, está visivelmente perturbado. Sofre de despersonalização. Talvez devesse ser Ministro do Ambiente. Todos sabemos que os ministros apenas cumprem o papel de representantes do Grande Líder, não interessa a formação que têm. É por isso que tanto podem ser ministros da saúde, presidentes de um conselho de administração, ou professores catedráticos. Chama-se a isto flexibilidade ou versatilidade e qualquer uma destas coisas os nossos políticos têm para dar e vender.

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