6 de junho de 2009

Crónicas de uma viagem I

El Escorial


El Escorial, 2009 (c) N.R.

Há algo de extremista em viajar sozinho. Poder saltar de comboio em comboio sem ouvir as desvantagens e poder assumir, só, as desvantagens. Contudo, há sempre uma nostalgia da presença, o não poder comentar um quadro, ou o não pedir ajuda quando a viagem nos prega as inevitáveis partidas de quem se move no desconhecido. Não obstante os contras, sou um fã das travessias solitárias, da contemplação sem pressas, do silêncio ante cenas, espaços, pedras, árvores... § Os últimos dias foram quase uma sucessão alucinante de ligações, de enganos na hora certa, de um vai e vém constante entre espaços conhecidos e por conhecer. E de imprevistos. No fim tudo resulta num somatório entre o pensado e o executado o que, assim visto, nunca resulta no pensar que viagem foi uma perda de tempo ou de recursos. E cada percurso, por muito que o vejamos destituído de utilidade espiritual não deixa de ser iniciático. Quando estamos sozinhos damo-nos conta disso, de como as viagens começam e acabam dentro dentro de nós. Perante sítios como o Escorial, ou os Picos das Astúrias, ou mesmo ante a mole frenética de Madrid, experienciamos sentimentos diversos que nos confrontam entre gostos, desejos, saudades - vêm ao de cima pessoas, lugares, tempos. Não sendo nacionalista, amo Espanha. Amo este país diverso até à raíz das suas fundações e acredito que o melhor de Portugal para lá derivou ou por lá ficou: uma capacidade histórica e inata para criar e recriar que, algures entre os séculos XVI e XVIII se perdeu deste lado e do outro prosseguiu, até aos dias de hoje. O Escorial que finalmente tive a oportunidade para apreciar (mesmo apesar de conhecer melhor Madrid do que Lisboa) é a prova dessa tenacidade castelhana para prevalecer e rentabilizar. O mosteiro serve a glória dos homens e das suas batalhas, mas como espaço de administração bastou um anexo menor de onde Felipe redigia os seus memorandos lia e coleccionava relíquias numa actividade que teria mais de fetichista do que de religiosidade. Em quase todos os cantos uma marca portuguesa: rainhas e infantes mortos a recordar uma presença que foi grande ante a Europa, passando por Espanha (grande não no sentido patrioteiro e nacionaleiro do termo, entenda-se, grande como em diálogo vertical, face a face que hoje não existe). Aqui e ali o brasão composto do império de Felipe, que incluía o Portugal herdado, comprado e conquistado, fez-me querer que aquele edifício tão austero como belo fosse nosso. Saramago bem podia ter escrito o Memorial do Escorial. Ah, não, já me esquecia. Só o que é feito pelos nossos é mau, é beato e é inútil. Afinal de contas é por isso que ele vive do lado de lá.

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