4 de maio de 2009


"Variações" (c) N. R.

As estações de caminho de ferro, sobretudo as mais movimentadas, são locais extraordinários para observarmos expressões, sentimentos, movimentos ordinários ou extravagantes, enfim, para aquilatarmos da dimensão do mundo próximo àquele microcosmos. Por ali, adivinhamos o que nos espera fora dos trilhos e fora das portas da gare. A estação de São Bento, no Porto, é um destes espaços, um dos espaços mais belos da cidade. A forma como a luz entra pelos enormes vãos e vitrais, como o azul dos azulejos de Colaço expandem o sol pelas paredes altas e esmagadoras, deixa qualquer visitante extasiado. Depois, passando às gares, as esguias colunas de ferro fundido, pintadas de verde, são como troncos de sequóias que sustentam folhagem envidraçada, translúcida, como um céu nocturno enevoado. Quando era pequeno, nos meus 4 ou 5 anos e cheguei, pela primeira vez ao Porto, por comboio, depois ter atravessado a longa noite do túnel projectado por Baére, imaginei que a cidade era apenas acessível por aquela passagem estreita, tão estreita que a minha imaginação se contraía com medo para depois se maravilhar com a luz e o movimento da estação, onde afluíam todos os desejos. § Enfim, já me dispersei. Voltando às pessoas: todo e cada um daqueles indivíduos espera, procura ou encontra algo. Nas chegadas e nas partidas revela-se algo surpreendente, ou mesmo mágico e tornámo-nos espontâneos. É interessante como as pessoas assumem uma postura de quase ritual enquanto aguardam e nessa altura somos capazes de vislumbrar-lhes para além do anónimo. Vincam-se as diferenças, as gerações, não sei se pela luz, pela expressão de ansiedade. Noutros sítios sentimos que a sociedade se abate perante um cinzento de inexpressividade. Ali não. Bom, tudo isto será, talvez, um delírio meu...para cair na realidade lembro-me de um amigo meu que com quase 50 anos não fala para mim há mais de seis meses. Amuou com a minha sinceridade. É nestes momentos que eu me lembro que nem sempre as gerações assumem os seus papéis, às vezes diluem-se e quem devia ser não o é. E um adulto passa a ser uma criança. Às vezes é bom, para avivar a memória. Mas outras vezes não, pois infantiliza-a.