15 de abril de 2009

A "História local": para quando uma certificação de qualidade?

Imagem picada daqui

Longe vai o tempo em que ser Historiador era uma honra e estava entre os mais altos cargos da Nação. Num tempo em que, apesar de a História, enquanto ciência, não estava ainda verdadeiramente definida, o historiador era um erudito que afincadamente dissertava sobre os documentos, manejando habilmente tanto a palavra como o pensamento. Hoje, não existem historiadores verdadeiros e os que existem, ou, lamentavelmente nos vão deixando, como o grande A. H. de Oliveira Marques ou estão já numa fase crepuscular da sua vida. De resto, os académicos que leccionam nas universidades são lentamente transformados em tecnocratas que Bolonha traga em longas horas desperdiçadas em relatórios e projectos mal alivanhados para justificar números sem sentido. § Por outro lado tornou-se banal o historiador contador de histórias, uns com âmbito mais nacional e com tempo de antena, como o professor José Hermano Saraiva (cuja formação de base nem é a História) e outro, mais comum, como o historiador local que tem contribuído para a maior deseducação de que há memória em Portugal. Porquê? É simples. As Câmaras Municipais raramente patrocinam edições elaboradas por académicos, redigidas por licenciados, mestres ou doutores em História, arqueologia e, ou, arte, pois para além do preço da impressão e do grafismo, há a pagar o trabalho de investigação. Por isso qualquer um pode ser "historiador", basta munir-se de meia dúzia de estórias, lendas e mitos e declama, do alto da sua sapiência, o que sabe sobre a sua terra. § Este trabalho de "historiar" é, para muitos, uma carolice. Eu até tenho vergonha, muitas vezes, - digo-o com sinceridade - em dizer que sou historiador e que investigo. Maior parte das pessoas não compreende para que serve a História, muito menos para que diabo passa uma pessoa horas e horas metida num arquivo a prescrutar velhos documentos. Por isso, qualquer indivíduo que "perca" o seu tempo a fazê-lo, ou é tolo, ou é um desses carolas que qualquer freguesia ou município produz ao longo de gerações. § Bem sei que as monografias que estes senhores (e, embora em menor número, senhoras) redigem são por vezes fontes primárias e que eles foram, de facto, os primeiros a desbravar território inculto. Conheço, aliás, monografias excelentes redigidas por historiadores amadores. Mas não posso deixar de verificar que embora a História não seja apanágio dos académicos, estes perdem para tais "monógrafos", pois o seu trabalho é gratuito, vendido a troco de uma, quase sempre má, edição... § O resta? Maus livros, cujo conteúdo revela o pior da História local: documentos mal interpretados, leituras paleográficas deficientes, páginas e páginas de informação mal organizada, tantas vezes plagiada de obras como a de Pinho Leal - que só por si é já um manancial de incorrecções. Por desconhecerem o uso da crítica e do paciente processo heurístico, estes "historiadores de bairro" assumem qualquer documento como verdadeiro e qualquer testemunho como passível de ser verdadeiro e pertinente. § O resultado parece passar despercebido a todos nós, académicos e pedagogos, mas é cada vez mais um problema sério: as estantes das bibliotecas públicas estão cheias destes livros que quando não de luxo, são lixo (ou ambos) e malogradamente a eles recorrem os estudantes do ensino básico e secundário em busca de material para trabalhos escolares. § A Academia Portuguesa da História é o único organismo que pode fazer algo quanto a este triste panorama, uma vez que não existe (infelizmente) uma Ordem dos Historiadores. É necessário - eu diria absolutamente imperativo - certificar, com selo de qualidade, a historiografia local e regional. E dignificar o trabalho de historiador que hoje perde para o de antropólogo, sociólogo, etc. § Um povo que não consegue "ver" o passado, dificilmente conseguirá encontrar o bom caminho para o futuro...