8 de abril de 2009

A díficil sustentabilidade da religião e do conhecimento.

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"Vou mostrar-vos o meu Cristo. Não é verdade que é muito belo? Mas, claro, falta-lhe o braço direito, o esquerdo está mal seguro no ombro e a mão partida por ter sido arrancada violentamente do cravo. Também lhe falta a perna direita, cortada por meio da coxa. Conserva a esquerda, mas colada à pressa e sem cuidado. E, além do mais, está sem cara. Partiram-lha totalmente. Cristo sem rosto. Cristo anónimo. Cristo fantasma. É, porém, muito belo, não é? Ainda que muito triste. Não me restaures. Porque não queres que te restaure? Não compreendes, Senhor, que será para mim uma constante dor ver-te partido e mutilado, cada vez que te olhar? Não compreendes que sinto dó? É isso que quero: que vendo-me partido, te lembres de tantos irmãos que convivem contigo, ignorados e distantes, e que estão, como Eu, partidos, esmagados, indigentes, oprimidos, doentes, mutilados… Sem braços, porque não têm possibilidades nem meios de trabalho; sem pés, porque lhes bloquearam os caminhos e não podem dar um passo em frente na vida; sem cara, por que lhes roubaram a honra, o mérito, o prestígio. Todos os esquecem e lhes voltam as costas… Não me restaures! Talvez que, vendo-me assim, te sirva de lição para a dor dos demais (...)", extraído de "O meu Cristo Partido" de Ramón Cué.


O que sabem as crianças de hoje sobre o Natal e a Páscoa que vá além da generosidade de um velho barbudo que vive no Pólo Norte e de uma estranha raça de coelhos poedeiros? Pouco ou nada. Cada época vai perdendo o significado litúrgico e religioso. Laicização, dirão uns, efeito de uma publicidade contundente, segundo outros. Qualquer que seja a explicação nenhuma delas substitui a educação com valores éticos e morais. Entre a Boa Nova de um nascimento que augura salvação, ou um sofrimento redentor, prefere-se o consumismo, as prendas, o ócio, a fantasia etérea de cores garridas e excitantes. Em suma: à dor humana, contrapõe-se com a satisfação fácil e os bens perenes. Explicar às crianças o verdadeiro sentido do Natal, fazê-las ver, com os olhos da alma e do corpo, o significado da Quaresma não é uma conversão à força, nem sequer um abuso maior no percurso da sua descoberta individual. É cultura, é saber. Espanta-me que um jovem não saiba reconhecer no património que está próximo de si (uma igreja, por exemplo), uma importância superior ou leia, na polissemia da diversidade histórica, algo com que possa honrar a sua geração e a das gerações futuras. Por isso me espanta que a Associação Ateísta Portuguesa se preocupe tanto com a participação de membros do Estado Português na canonização do Beato Nuno Álvares Pereira, mas ignore por completo a importância dos panoramas cultural e social decorrentes do património religioso, qualquer que ele seja, de que religião ou credo emane. São as diferenças que nos unem, não a necessidade de encontrar semelhanças, ou forçar a sua existência. Os ateus, enquanto corpo institucional, devem criar para provar a sua grandeza, não exigir, como infelizmente exigem, a destruição dos outros, os não-ateus. O atavismo é tal que um dia chegaremos ao ponto de varrer da face da terra com todos os símbolos religiosos. As novas gerações já quase os desconhecem - substituíram-nos pelos novos símbolos e novos ídolos do mediatismo e da internet. Quando compreendermos que o ser humano tem necessidade de refugiar-se no desconhecido, no mistério que hoje saceia através de teclas e de ecrãs, e que os símbolos e os deuses são imortais e apenas se transmutam - poderá não ser tarde para acalentar a ideia de sagrado e de religiosidade - mas terá com certeza passado a era das grandes criações. É que os instrumentos e os canais de hoje não estimulam a criatividade nem o pensamento. Entre um Pai Natal criado por uma marca publicitária e a história de São Nicolau de Bari, ou entre a morte e ressurreição de Cristo e as histórias fáceis de gnomos, vampiros e fadas - temas glorificados ad nauseam pela indústria cinematográfica de Hollywood, vai um abismo de conhecimento. A religião tornou-se um problema porque obriga a pensar. É demasiado complexa para as mentes light dos nossos dias. § Uma Santa Páscoa a todos e até breve.