30 de março de 2009

Nuno Gonçalves (c)
No próximo dia 2 de Abril, em Lisboa, no Hotel Fénix, vai acontecer um leilão de livros, fotografia e manuscritos organizado pela Otium Cum Dignitate. Recebi o catálogo e não resisti a digitalizar esta fotografia. Integra um vasto espólio fotográfico da autoria de Sebastião Cunha sobre o funeral do senhor Doutor António Oliveira Salazar. Esta belíssima fotografia condensa meio século de ditadura e perniciosa modelação do carácter nacional: numa pomposa cama, Salazar, de capelo universitário tendo nas mãos uma enorme cruz e terço jaz em cadáver magérrimo (*) de mãos longíneas. Ao lado, uma Maria enlutada (como as mães de província choram filhos e maridos ausentes) carpe a morte do senhor doutor, velado por uma Nossa Senhora de Fátima em plástico e uma pagela de Santa Teresinha de Jesus. Eis o providencial salvador da pátria, que honrou os tamancos do pai transformando Portugal numa enorme horta regida com mãos calejadas pela enxada e pela pena.
(*) O Prof. J. Oliveira chamou-me a atenção para a forma magérrimo como forma desconhecida ou incorrecta do superlativo sintético de magro, sugerindo, em alternativa, macérrimo ou magríssimo. Contudo, como refere o site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, «o "Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, Michaelis" regista magérrimo como superlativo absoluto sintético de magro, embora considere este termo uma forma anormal, sendo a correcta macérrimo. Ainda regista magríssimo. A "Nova Gramática do Português Contemporâneo" de Celso Cunha e Lindley Cintra só refere macérrimo e magríssimo. O "Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa" de D. P. Cegalla diz, na entrada macérrimo, o seguinte: "(...) A forma magérrimo é anormal. Prefira-se macérrimo (forma erudita) ou magríssimo (forma vulgar)."Contudo, já o conceituado "Dicionário de Questões Vernáculas" de Napoleão Mendes de Almeida só refere, para superlativo sintético de magro, as formas magérrimo e magríssimo». Conferir aqui. Assim, considerando certa as formas apontadas pelo caro amigo, e embora magérrimo não seja comum, não se considera incorrecto utilizá-la.