20 de março de 2009




Entre os meus "impulsos" consumistas e alfarrabísticos estão os retratos fotográficos e as cartas. Por razões que ultrapassam em muito a análise do processo heurístico. Seduzem-me os rostos e os fragmentos de um discurso interrompido. Em ambos os casos, quer no das fotografias, quer no da correspondência pessoal, esvaziaram-se os elos físicos que ligavam emissores e receptores, ouvintes e falantes. Eu, por muito que tente, nunca saberei o "porquê", ainda que prescrute sinais do "onde" e do "como". Não é como reconstruir um vaso partido cuja quebra foi fixada por camadas e camadas de terra - o "vaso" a que me refiro era constituído por indivíduos e cada um deles, na sua morte, ocultou o invólucro, deixando apenas vaga ideia da sua forma, do seu uso e dos seus significados. E, no entanto, ali está o morgado, face serena mas inquieta, acompanhado pelos seus quatros filhos, encaminhados, talvez, para uma carreira nas letras representada pelos livros colocados de forma tão aleatória como simbólica. A mãos nos ombros, a posição ordenada do filho mais novo para o mais velho, peças organizadas num cenário montado sobre um cartão (no fundo, a sociedade do seu tempo) e cada um deles a olhar para nós numa iminência de diálogo que, tão tristemente, acaba num monólogo interior. "Família do Douro, Armamar (?)"; positivo sobre papel, séc. XIX (finais), col. particular (adquirido num alfarrabista do Porto, a 17-3-2009.