23 de março de 2009

Da devassidão dos tronos e da moralidade republicana.

(Centenário da República)

Um dos argumentos de muitos republicanos que conheço é o de que as monarquias foram, ou são, antros de devassidão. Não usam esta expressão mas a ideia soa ao mesmo, ou seja, pela sua ordem de ideias, a uma devassidão monárquica equivale a uma certa "moralidade republicana", uma espécie de heterossexualidade monogâmica. Logo aqui há uma incongruência, pois é à monarquia que se reputam valores tradicionalistas de família e não à república que tanto pode ser entregue nas mãos de um solteiro ou de um casado. E a devassidão, como nós sabemos, não é apanágio da realeza, se não dos homens e das mulheres, comuns mortais. Depois, vem a questão da representatividade. Segundo os republicanos (ou não-monárquicos) um rei não representa o conjunto total dos cidadãos. É verdade. Haverá sempre uma franja de insatisfeitos. Num estado presidencialista a coisa piora. Além dos sempre insatisfeitos, há os não votantes e os que não votaram num dos candidatos propostos, cada um deles representando ou um partido político, ou uma facção ideológica ou um grupo económico. Cinco ou seis candidatos servem os interesses da maioria de uma nação? É óbvio que não. O ideal seria que um comum cidadão pudesse ser eleito apenas pelas suas ideias e não pelos lobbies ou por fundos monetários conseguidos de forma pouco clara. Depois segue-se a questão histórica. A História, segundo os republicanos, é uma sucessão de erros monárquicos: batalhas, amantes, guerras fraticidas. Só em Portugal, dizem, tivemos um rei que bateu na mãe, um que levou o país à ruína e à perda da independência e outros dois que puseram os seus súbditos uns contra os outros. Os mitos são perigosos, sobretudo quando usados por ideologias e políticas. Embora não goste de julgar a História, é verdade que, em todos os tempos, em todos os regimes e estados houve necessidade para tomar o poder - e só ao poder se deve apontar a causa de todos os males dos bons e maus governos, dos bons e maus governantes. As estratégias são comuns a monarquias e repúblicas. Devo lembrar, aliás, que o período republicano de Roma, em que se lançavam as bases para os regimes presidencialistas actuais os golpes sucediam-se vertiginosamente. Portugal do século XX é a prova de que uma república não foi, de modo algum, a solução para o país. A instabilidade que se conhece entre 1910-1926 deu origem à mais longa ditadura de todos os tempos: quarenta e oito anos de uma odiosa e perniciosa noite de governação que teve à frente dois homens: um "moralmente devasso", beato e atávico que incutiu na já melancólica personalidade dos portugueses, a máxima do pobre e alegre, do incapaz mas honesto, do frugal e atreito às coisas simples; e outro, mais culto e aberto, mas nem por isso capaz de democracia. É possível comemorar uma república de 100 anos, em 2010, quando metade deles foram debaixo de uma ditadura? Tenho a certeza que não. Há efemérides que não se devem comemorar. A república portuguesa que continue, discretamente o seu papel para o qual se talhou, e não faça grandes ondas - que a vergonha e o saber reconhecer os erros são apanágio dos sábios, não dos tolos. E não devemos continuar a julgar a História. Devemos pesar na balança da contemporaneidade as vantagens entre monarquia e república. E para isso basta olhar à nossa volta. Afinal que desvantagens encontram os outros nas suas monarquias? Não me parece que a Espanha, a Noruega, a Suécia, a Dinamarca, e mesmo o Reino Unido (Canadá e Austrália incluídos) estejam insatisfeitos com o regime que têm. Mil vezes uma monarquia excessiva como a Inglesa, a uma república de paz podre como a portuguesa.