10 de janeiro de 2009

"Porque"

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner

“No Tempo Dividido e Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 79. Retirado daqui.

3 comentários:

  1. Amado Amigo Estes versos que elegeu como bandeira são bem o epítome do seu inigualável... raro...procedimento.Bem sei que lhe é exigido um preço á altura da inveja que o mesmo suscita.Ser-se livre é isso mesmo! Ser e não recear...não esconder! ABRAÇO

    ResponderEliminar
  2. Como a Helena, digo: " ser-se livre é isso mesmo "; um " lema " trabalhoso, mas, pelo que conheço do Nuno, um lema que é o seu, já.

    ResponderEliminar
  3. Belo o poema de Sophia.
    Mais do que bandeira diria um lamento.

    Deixa os outros, olha para ti.

    Abraço!

    ResponderEliminar

A Democracia exige Responsabilidade individual. Nicks, anónimos ou mensagens insultuosas demonstram faltam de auto-estima, comportamentos associais e incapacidade de lidar com a opinião alheia e, como tal, não serão publicados.