24 de novembro de 2008

Tradição ou ódio de estimação?

Enviaram-me recentemente este vídeo. Segundo a mensagem que o acompanhava, terá sido censurado ou impedida a sua transmissão na televisão. Toda a acção é francamente violenta: um grupo de jovens (na sua maioria) apedreja outra jovem. A lapidação é acompanhada por um texto que compara a situação à das touradas. Ponto 1: que eu saiba nunca foi tradição em Portugal o acto de apedrejar pessoas. Quando muito houve actos espontâneos ou premeditados (mas pontuais) de violência dirigidos a indivíduos ou grupos de indivíduos em contextos específicos de crise (ex. o Pogrom de 1506 contra judeus de Lisboa). Nunca, felizmente, se fez tradição disso. Aliás, frequentemente, da boca de muitos fanáticos se compara a tourada e os touros de morte às sentenças da Inquisição. Novo erro (gravíssimo), novo anacronismo: nunca os actos decorrentes da acção do Tribunal do Santo Ofício resultaram em transmissão geracional de processos e actos miméticos com vista à preservação de conhecimento vital à construção identitária ou ao impedimento da desestruturação do sentido de comunidade. Em alguns casos, bem conhecidos, como no do Porto, no século XVI, nos autos de fé onde se lançaram condenados à fogueira, houve uma reacção de repulsa que testemunha bem a condenação popular deste tipo de actos. O que me leva ao ponto 2 de análise deste vídeo: colocar na mesma linha de análise o sofrimento humano e o sofrimento animal é demagógico e irracional. Abomino a violência prepertada contra qualquer ser vivo: a prova disso é que acolho em minha casa animais que recolhi da rua e não por vaidades ou modas, mas não suporto este tipo de campanhas. Em alguns locais da Europa e dos Estados Unidos da América há mais dinheiro gasto com animais domésticos do que com desalojados ou pobres. É esta a mensagem que queremos fazer passar à humanidade: que escolha entre os animais e o seu semelhante? A questão das tradições dos touros de morte e das touradas é mínima (e, repare-se, não defendo estas práticas, nem sou seguidor das mesmas) quando comparada com a violência dirigida a animais domésticos e outros. Então, porque não salvamos os frangos de aviário, mortos para consumo; os cães horrivelmente mutilados que se encontram nas sarjetas, por todas as estradas deste país; os patos alvejados para gosto de uns e outros; os lobos perseguidos, as serpentes mortas por simples ofiofobia! Não? Fazer uma campanha deste género para passar uma mensagem de ódio é digna de alguém menos carinhoso do que um animal...irracional.

4 comentários:

  1. Nuno,
    fui eu que editei esse filme há sensivelmente 2 anos,
    e já na altura eu frisei precisamente que o apedrejamento (lapidação) nunca teria sido tradição em Portugal...
    os criativos ficaram fulos com a minha chamada de atenção e eu quase que era apedrejado pelos próprios.
    Fora isso foi um dos que me deu mais prazer editar...durante 3 dias...
    abraço.

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  2. Caro Zé, em termos gráficos e de edição, nada tenho a obstar, do que pouco que sei sobre a matéria. O que me preocupa é que passem mensagens destas sem contextualizar... além de não ser pedagógico é perigoso.
    Um abraço!

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  3. Como bem sabem a criação pode ser um acto pedagógico,emocional-impulsivo interventivo mas nunca nunca impulsionador ou tendencialmente confuso. Os surrealistas pretendem levar o que vê o outro ao seu campo de entendimento emocional e aí é que esta o tal perigo...Este vídeo pelo exagero da agressividade e sem constextualização esclarecedora,poderá levar os
    tais "surrealistas" nem todos a começar a apedrejar a lapidar... mais ainda... "por tradição" anunciada pelo criativo tudo e todos...ALTO AÍ com a criatividade associada!

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  4. Ai...
    fiquei cansado com a explicação da Helena Branco...
    acabei de me sentir o Homer Simpson!
    Doahhh!

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