8 de novembro de 2008

Genealogia em Portugal


...genealogia, uma ciência em que se distinguem muitos parvos!

Camilo Castelo Branco


A genealogia é, por definição genérica, o estudo do parentesco, mas o que vulgarmente conhecemos desta ciência, sobretudo em Portugal, são róis onomásticos, relações de descendentes e a sistematização de linhagens na sua maioria nobres ou que ascenderam a tal condição. Mesmo na recente explosão de biografias editadas, dedica-se especial atenção a figuras de destaque que, por uma razão ou outra, deixaram a sua marca na sociedade ou na política nacionais. As genealogias ou as biografias populares não têm tradição em Portugal, sendo remetidas para planos inferiores, numa associação atávica e a-científica entre popular e vulgar, como algo sem interesse ou não documentado. Nesse sentido os estudos genealógicos portugueses são herdeiros da escrita nobiliárquica e da tratadística apologética que venceu sobretudo no século XVIII. O desinteresse pela ilegitimidade, por grupos marginais e pelo destrinçar de conceitos como "casa", "linhagem" e mesmo "família" (com tudo o que de sociológico e histórico a palavra representa em contexto português e ibérico - dada a proximidade a certos vectores mediterrânicos) é por demais evidente, mesmo em trabalhos mais recentes. Neste percurso, oscilando entre um passatempo cada vez mais lucrativo e o carácter pouco fiável do método, a genealogia vai sendo arredada dos programa das grandes disciplinas como a História, a Sociologia e a Demografia. A Antropologia, talvez porque mais afeita à linguagem do parentesco, desenvolveu e teorizou abundantemente no campo das estruturas familiares e das relações de afinidade e consanguinidade. De resto, tudo o mais tende a ser desvalorizado e não sem alguma razão, dada a abundância de literatura genealógica apologética, centrada no desenvolvimento de linhas de sucessão de casas e família, e onde são utilizada expressões como "senhor da casa", "fidalgo", "nobre", etc sem que, em todos os trabalho do género, se discorra sobre conceitos tão básicos como nobreza, casa, família, etc. Para não falar do silêncio sobre peso das relações não consanguíneas, ou da contextualização, no tempo e no espaço, dos indivíduos ali apontados! No entanto a genealogia revela-se um dos caminhos mais interessantes (também mais complexos, mas por isso aliciantes) no âmbito de estudo das Ciências Sociais e Humanas. Compreender um pequeno agregado, perceber as estratégias reprodutivas das famílias (com vista alcançar statuo quo, determinado posto, garantir sucessões, etc) ou mesmo destrinçar mecanismos de distribuição ou concentração de poder e prestígio - ou simplesmente seguir um ofício mecânico na sua passagem de pais para filhos e netos - é observar à lupa a engrenagem da sociedade. Porque esta move-se diacrónica e sincronicamente. Não adianta pois saber que o Marquês de tal teve dois filhos e destes houve quatro netos. Se não soubermos quem orbitava em redor do Marquês e da sua família, quem foram os seus criados e que mundos eram os de cada um, ficaremos com a ideia de uma sucessão estática de títulos nobiliárquicos e de uma nobreza em que o "fio de sangue" é o fio condutor de honras e glórias (geralmente vãs).

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