17 de novembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira ideológica.


Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso
que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
"Ensaio sobre a cegueira", José Saramago.

Saramago é um iconoclasta cínico, pedante, ideologicamente cego e cada vez mais velho. Felizmente que a idade vai vergando cada um daqueles defeitos do senhor e, confiamos nós, chegará ao túmulo já completamente redimido de todos os seus pecados que incluem, como bem sabemos, perseguições à boa maneira estalinista, mediocridade q.b. e conversa-ditatorial-em-potência/hipocrisia que esta gente, como Saramago, tem e cultiva com boa vontade para dar e vender. No entanto, mentiria se dissesse que detesto totalmente o que Saramago escreve. Comecei a ler Evangelho segundo Jesus Cristo e parei à décima página. Li Memorial sobre o Convento, mas irrito-me quando fazem propaganda com romances históricos (já ninguém lê Marguerite Yourcenar... ao menos a elogiarmos ou deturparmos, que se faça como ela, deturpe-se em nome de sentimentos e não de bandeiras). Parei aí. Retomei Saramago em Intermitências da Morte. Gostei. Gostei sinceramente. Mas digo-o e repito-o: não merecia o Nobel pelo que escreve, nem pelo que sabe. § Saramago tem boas ideias, quer dar lições de moral à humanidade; confrontá-la com o seu próprio cinismo (o dele e o da humanidade) e consegue-o em Ensaio sobre a Cegueira, mas é demasiado óbvio (não chega aos pés, em talento, mensagem e erudição a um Jorge Luís Borges). Além disso odeia demasiado a Igreja Católica; tanto que passa o tempo a prostrar-se-lhe aos pés. Ensaio sobre a cegueira (filme) é uma obra de arte, um esforço incomparável para retirar das simbolicamente medíocres frases de Saramago um mundo de temores (e se cegássemos todos? por infecção - uma metáfora? o caos! o mundo em ruína - já se vê, cegar não é o mesmo que emudecermos ou ensurdecermos... a imagem resulta francamente bem), mas no meio daquilo tudo (morte, desespero, imagens escatológicas de uma quarentena forçada em que impera a desordem, o nojo, a auto-destruição) sobressai a imagem de uma Julianne Moore, belíssima, alva e nobre. Depois, à força (como Saramago fizera com as palavras), Fernando Meirelles enfia-nos pelos olhos adentro (bonita imagem em contexto próprio) a violência que o texto não deixa sentir tão fortemente: violações em massa, mortes ocasionais e perfeitamente dispensáveis, fezes, gangrena, sangue, fome, etc - como se a própria epidemia de cegueira branca (branco = sufoco) não bastasse. De resto a filmagem com grão, os pretos e brancos contrastantes - cenários de sombra e penumbra - em alguns casos o ecrã quase quase negro (a nossa cegueira) conferem uma certa beleza invulgar ao filme. Se aconselharia a ver? Sim. Não obstante a imagem vendável de destruição de que alimenta a curiosidade mórbida humana vale sempre por deixar algumas consciências ocas a pensar. Não é nem um romance nem filme sobre a cegueira comum, logo nada apologético a quem não vê por patologia (como se pode ver por uma das personagens, cego «de verdade»). É um filme sobre quem não quer ver. Por isso resulta muito bem a imagem medieval associada ao romance "Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara", extraída do Livro de Conselhos de D. Duarte.

3 comentários:

  1. ola! não vi o filme mas agora deixaste-me curiosa, porque além do mais sempre gostei de saramago.

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  2. Já eu, só gosto de algum Saramago( por ex.«O Ano da Morte de Ricardo Reis»), mas também fiquei curiosa.

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  3. eu...Amigo só gosto de saramagos, que em algumas aldeias são o correspondente aos azedões e aos agriões noutras...Todos estes "vegetais" me remetem para outro "vegetal" o Saramago...que tem parentesco com o acima enumerado
    da família dos azedões, predicado reconhecível no autor do Ensaio sobre a cegueira...Irei ver o filme naturalmente

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