21 de outubro de 2008

O silêncio das esferas e os Anjos do flagelo.

Apocalipse do Lorvão, Os Sete Anjos do Flagelo


(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)
Álvaro de Campos


De uma semana na serra, regresso à cidade aflita. Dou conta dos avanços milimétricos da crise mundial que arrasta as linhas dos gráficos em sentidos descendentes. Há dias escrevi aqui que havia algo de dança macabra nisto tudo e é verdade. A crise avança como a peste, com um certo ar festivo que obriga os moribundos e os mortos a caminharem ledos para a sua própria sepultura. Não fosse esta vaga epidémica sacudir o corpo de uns poucos justos que ainda seguram os pilares da terra e, sim, estaria contente. Dançaria. Não há nada como assistir à ruína dos grandes, daqueles que durante anos a fio construiram impérios à conta das muitas miudezas de nós pequenos. Mas ainda que segure uma certa alegria, não posso deixar de sentir um orgulho indescritível em assistir aos tempos que correm. Estamos a viver algo - algo que, como em todas as épocas de viragem da história da Humanidade pode ser bom ou muito mau - mas o que quer que seja efectivamente será, com certeza, uma forma de acordar quem dormia e sonhava com abundância, desperdício e imortalidade. Lá fora há um mundo bem menos farto, e bem mais finito. Quem julgue que pode continuar a participar nesta ceia pantagruélica de excessos pode tirar o cavalinho da chuva. § Mas até na forma como a crise nos afecta se vê o grau de irrealidade em que temos vivido: o quão é diferente a imagem deste monstro apocalíptico para quem vive nas cidades, lê jornais, faz zaping por milhares de canais e cai nas parangonas da internet como o último dos oráculos. Na semana que passei numa aldeia da serra de Montemuro, tendo como vizinhos pouco menos de 50 habitantes, nenhum motivo houve, de há um par de semanas a esta, para mudar os hábitos, moderar consumos, ou chorar bens efémeros e imaterais. Há uma sensação de segurança, de enlevo. No fundo, quem há séculos depende de um pequeno talho de terra, só tem que se preocupar com ela. Chora se há água a mais ou a menos, se há calor excessivo ou se o frio chega cedo. E se é certo que o clima tem demonstrado a sua irregularidade, enquanto a terra não se sumir sob os pés daqueles camponeses, há certeza do sustento que nenhum cartão de crédito, nem nenhuma acção da bolsa pode comprar.

3 comentários:

  1. ora nada mais verdadeiro do que a verdade...passe a redundância, o que oculta a realidade é o excesso, criando uma falsa sensação de abastança vitalícia, mal vai é quando cai um no seu próprio desperdício, caem como tordos uns tantos e mais fundo porque não têm quintal nem milho no espigueiro, nem porco na pocilga mas...do que o porco "desperdiça" ficam todos a feder!...

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  2. Por essas e por outras que ando aqui com umas ideias de regresso à ruralidade, "after PhD". Estou farto desta vida aflita. Acho que estamos todos fartos.

    Abraço!

    P.S. Sete anjos do flagelo mais sete peixes mais um?

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  3. ora viva!! pois como sabes sou uma rural convicta, e na verdade o apocalipse q s aproxima e q aparentemente derrubará os impios aqui às profundezas do nordeste transmontano ainda não chegou, ou se calhar nunca saio !! mas nada de muito dramatico ocorreu, eu pelo menos não dei conta... hahaha

    beij

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