29 de outubro de 2008

"Dicionário do cidadão sem medo"

Diccionari del ciudadano

SAVATER, FERNANDO - DICCIONARIO DEL CIUDADANO SIN MIEDO A SABER.
EDITORIAL ARIEL, S.A.: Barcelona, 2007. ISBN: 9788434453395


Comprei este pequeno livro (lê-se numa viagem de autocarro) em Madrid, há quase 2 anos. Ainda não foi traduzido para português, nem o tenho visto, sequer, nos escaparates das livrarias mais abrangentes. Com grave prejuízo para os leitores portugueses, quanto a mim. Fernando Savater (para quem desconhece, trata-se de um filósofo espanhol com vasta obra publicada que toca o social e o político contemporâneos) sistematiza o pensamento e a organização social actuais e todas as implicações que advêm de uma democracia ocidental em crise. Se não, vejamos: os verbetes que desenvolve no seu dicionário, são em torno da participação política e de um homem político (moribundo?): Cidadania, Constituição, Direita/Esquerda, Diálogo, Estado, Identidade, Imigração, Laicismo, Nacionalismo, Opinião pública/opinião pessoal, Parlamento, Paternalismo, Paz, Políticos, Progressista/Reaccionário, Povo, Sectarismo, Separação de poderes, Terrorismo, Tolerância. Savater oferece-se para discutir connosco problemas preementes, como o terrorismo ou a cidadania, tendo sempre presente a necessidade primeira da discussão (que dá o mote para quebrar um silêncio cada vez maior dos cidadãos com medo). «Em democracia políticos somos todos», diz. Talvez seja esta a razão fulcral do livro, penso eu, se não por que é que Savater abordaria questões como os sectarismos, a inevitável imparcialidade dos media e a formação de uma classe de «especialistas em mandar», como designa os políticos actuais? A democracia anestesiou a participação cívica. Não se trata de uma forma de censura, mas sim de uma espécie de cura pela doença que deixa no organismo vivo que é a sociedade um total desinteresse pela participação e pela cidadania (dando azo ao oportunismo de alguns que vêm no amorfo o terreno fértil para instalar o seu consulado).


P.S. Agrada-me especialmente a entrada "paternalismo". Savater define e resume bem a hipocrisia dos Estados, face aos seus cidadãos: El vicio de los goviernos y de las autoridades públicas de empeñarses en salvar a los ciudadanos del peligro que representan para sí mismos (...). los Estados suelen ofrecerse solícitamente para dispensar a los ciudadanos de la pesada carga de su autonomía. Su lema es «Yo te guiaré: confía en mi y te diré lo que debes comer comer y beber, lo que debes leer, los programas de televisión o las películas que debes ver, cuánto debes gasta en el juego, qué debes hacer com tu cuerpo, etc.» Por supuesto, semejante solicitud no es de todo inocente.

3 comentários:

  1. ...como se não tivessemos cérebro, identidade própria! Acéfalos nós?

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  2. Escreveste por aí uma frase que me ficou aqui a martelar: "A democracia anestesiou a participação cívica".

    Receio ter de concordar. É urgente voltarmos a discutir e a batermo-nos por ideias, valores, causas. Eu acredito que estamos a viver um período de mutação que inevitavelmente nos fará regressar aos valores e ao humanismo. Enfim, regressar à nossa matriz.

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  3. Sim, cara amiga, acéfalos, quando deixamos que o nosso cérebro seja enfiado num frasco e mandado para análises clínicas, voltando depois asséptico e formatado.

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