31 de agosto de 2008

Filmes imperdíveis: Central do Brasil (1998)

Central do Brasil, Walter Salles, 1998, foto via site oficial.


Não sou daqueles que analisa tudo em função de parâmetros que são, ao mesmo tempo, preconceitos e critérios de quem quer formatar a sua opinião e a dos outros com um certo pedantismo intelectual. Há quem goste só de música clássica (ou se obrigue a gostar) e olhe quem não o faz com um certo ar blasé, como se toda a filosofia se resumisse a um acorde numa pauta de Bach ou de Mozart. Em tudo há filosofia e beleza e existem coisas que podem ser absolutamente perfeitas - ao contrário dos critérios inalcançáveis daqueles para quem o peso dos átomos influi na composição das suas opiniões. Central do Brasil, o filme de Walter Sales, é uma das obras de excelência e perfeição. Acabo de o rever, graças à (ainda) óptima grelha de programação do canal 2. § Partilho, aliás, convosco, no meu perfil, uma mão pequena de filmes que marcaram a minha vida e o meu gosto pessoal - de uma forma ou de outra (através da fotografia, do argumento, da representação ou da soma de todos), mas poucos, ou nenhum mesmo, conseguiu-me tocar-me como Central do Brasil. § A história dos caminhos cruzados entre pessoas solitárias em lugares tão movimentados como uma estação ferroviária, ou uma romaria em pleno sertão, leva-nos a meditar sobre sentimentos com os quais nos confrontamos todos os dias: ódio, amor, amizade, saudade. Nada mais banal, portanto? Puro engano. Colocar frente a frente um menino órfão, que tudo faz para acreditar que a mãe não morreu e o pai o espera para uma reunião sonhada e definitiva, e uma velha professora aposentada cujos objectivos se resumem a viver o dia-a-dia, recusando a encarar um passado tão semelhante ao presente daquela criança, revela-se a maior catarse e o maior lenitivo do espectador. Quem nunca sentiu a solidão na forma de uma presença adiada? Quem nunca perdeu - não na realidade física da morte, mas da distância ou da mágoa - o pai ou a mãe, ou alguém que, num simples momento, nunca mais pode recuperar? § À medida que o filme avança vamos caminhando com eles, entre os comboios que atormentam a vida de Dora (Fernanda Montenegro) - que o pai, ausente, mulherengo e alcoólico conduzia - até aos autocarros moribundos (a Estrela do Norte!) que percorrem estradas infindáveis em pó do sertão brasileiro, onde a solidão tem nomes e rostos. E fala, porém não escreve. Fá-lo então Dora, «escrevedora de cartas», que, mera intermédia de desejos, os regista para depois os guardar ou destruir, sem que o destinatário (que não o Santo, pois a esse o agradecimento pela promessa cumprida faz-se sempre pela felicidade da fé) os receba em tinta e papel - o que seria um paradoxo, uma vez que seria analfabeto como o remetente. Aliás, todo o filme é um tratado filosófico sobre o registo, o testemunho, a veracidade; primeiro através da escrita, depois pela fotografia, que tanto Dora como Josué partilharão como a única lembrança um do outro. No final, quando Dora deixa Josué entregue, não a um pai e a uma mãe, mas aos irmãos, também eles constituídos em família acima dos laços biológicos (mas afectivos), o caminho é o regresso a ela mesma, depois de cumprida a aceitação interior dos fantasmas sobre carris. § Não é, como em Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002), ou nas novelas que nos impingem todos os dias, um Brasil violento, agressivo, repleto dos estereótipos do costume. É certo que não podia afastar-se muito de uma linha condutora que o mundo ibérico traçou nos trópicos, mas podia passar-se em Portugal, ou em Espanha (e nesse aspecto é impossível não pensar em certos filmes de Almodôvar). É antes, um interior geográfico estranho, que vive à margem das convenções, onde a vida e as relações sociais não são fáceis de encaixar em casas todas iguais, em povoados imensos, sem água nem luz. Central do Brasil é um filme sobre coragem e sobre afectividade - condições que hoje (como sempre?) fizeram laços e construiram pontes entre nós e os outros, algumas mais seguras dos que as ditadas pela consanguinidade. Acima de todas as convenções. § É impossível não deixar de acompanhar Fernanda Montenegro nos momentos finais, que aqui vos deixo como sugestão para um filme imperdível:

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