2 de julho de 2008

Maus ventos: a energia eólica e a serra de Montemuro.

«Gradiente paciência»
Gradiente paciência, Tendais, Cinfães (c) N.R., 2007

Ouvi há dias o discurso de um presidente de câmara, sobre as desvantagens da construção das torres eólicas. Que a sua necessidade era indiscutível, claro, num mundo preso aos malefícios do petróleo, mas que se os ditos aerogeradores pudessem ser instalados nas serras sem que a paisagem fosse arroteada por aqueles moinhos de vento diabólicos, seria ouro sobre azul. Tudo aquilo soou a hipocrisia sem limites, dado que as instituições municipais, têm o seu ganha-pão à conta daquelas pás em movimento. Ganha a Câmara Municipal, as juntas e as paróquias em rendas, avenças e sabe Deus mais o quê; e os particulares não hesitam em vender, alugar e escambar a terra e o que for preciso desde que lhes corra o maná, vindo de tão saudáveis ventos. § O que aquele presidente não entende, ou não quer entender porque lhe convém, é que não é de mais formas de energia renovável ou não poluente que nós precisamos. É de uma política de contenção, de educação pela parcimónia e pelo reaproveitamento. Não precisamos de novos magnatas das energias renováveis, para substituir os dos cartéis do petróleo. Não precisamos de destruir mais, para termos mais. Precisamos, isso sim, de preservar o que temos e consumir menos, muito menos. Esta é a verdadeira política de salvaguarda do património e do ambiente a que ainda não se renderam certas associações ambientalistas, nem os nossos governantes. § Mas num mundo em que o que se estraga não se conserta - antes substitui-se por outro objecto novo; ou numa mentalidade em que destruir a paisagem é um meio para atingir um fim razoável, como o semear indiscriminadamente a serra com aerogeradores porque estamos demasiado presos ao petróleo - fazer passar a mensagem de parcimónia, de sobriedade e de contenção é como pregar aos peixes, ou fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha...Estamos presos aos derivados do petróleo? Andemos mais a pé, ou de bicicleta, ou de transportes públicos; compremos menos plásticos, evitemos enfardar as crianças com comida plástica ou presenteá-los com objectos desnecessários! § Já o disse (aqui e aqui), e volto a dizê-lo: não acredito na mensagem limpa, ecológica e humanista da energia eólica. Muita gente enche os bolsos à sua custa. Pode ser (hoje) politicamente correcto, mas é imoral que à conta de poucos percamos o que durante séculos muitos, juntos, lutaram para manter: a autenticidade e o património humano de uma serra, tão bonita como é (ou era) o Montemuro...

1 comentário:

  1. É sempre tão bom passar no seu blogue. Você comunica mensagens e faz-nos ficar a pensar.
    Um abraço
    Anad

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