20 de maio de 2008

Discriminado? Sim, eu também.

Não poucas vezes me tenho sentido discriminado. E à medida que o tempo passa sou confrontado com opiniões cada vez mais agressivas e xenófobas sempre que, por alguma razão (não finjo, mas também não trago escrito na testa) digo que sou católico. O sentimento agudiza-se quando ao facto de me assumir religioso acrescento a minha posição ideológica, o ser monárquico. Primeiro há um riso ténue, que depois passa a um esgar (que nos informa que o ouvinte encara a notícia primeiro como uma curiosidade etnográfica e depois com alguma preocupação). Vem então a pergunta fatal: "mas és católico praticante?" - como se o facto de ir todos os domingos à missa contribuísse ainda mais para a minha condição de retrógrado. Em seguida vem o inevitável comentário sobre a monarquia que passa, invariavelmente, por qualificar não o regime (repare-se bem) mas o rei ou a família real. "Achas justo ser governado por alguém não eleito"? "Cambada de doidos", "só esbanjam dinheiro", etc etc, os mimos alongam-se às vezes durante vários minutos numa manifestação de raiva incontida contra o Outro, o não-eleito, como se a nossa vida dependesse de um voto para equilibrar as desigualdades humanas, sociais e biológicas. § Depois vem a desconfiança. Deixo de ser sério e se porventura tivesse inicialmente deixado transparecer uma imagem interessante, sou imediatamente formatado como pedante, irrealista, conservador e puritano. Um Torquemada a atear uma pira ou mesmo - desenho de mentes mais elaboradas - um provável Hitler em formação. Segue-se o afastamento. Os "amigos" de esquerda evitam telefonar ou combinar mais encontros, os da direita ateia e (ou) republicana, tratam-me como o tolinho da aldeia - é inconcebível que alguém com a minha idade tenha ideias tão estapafúrdias como acreditar em Deus e querer ser súbdito de um monarca! Pois, mas não podemos ser todos do Bloco de Esquerda ou do Partido Socialista e defender causas para combinar política e moda. Bem sei que estaria melhor servido com um cartão partidário de um desses partidos - talvez até tivesse um bom emprego num organismo de Estado ou como comentador político-litérario-de-moda-ou-tudo-o-resto. Mas não. Não quero pensar que sou discriminado pelos meus ideais religiosos e políticos. Eu considero-me afortunado porque posso expressar-me e utilizar os canais à disposição para defender-me. Mas suspeito que a sociedade portuguesa esteja cada vez mais intolerante e mais ignorante. O racismo não é a única mancha que tem caído neste belo pano de linho a corar ao sol atlântico - há formas de discriminação e de xenofobia que, ou recusamos ver, ou aceitamos como se fossem algo natural. No fundo existem muitos mais discriminados do que as estatísticas ou os estudos sociológicos nos dizem.

6 comentários:

  1. Que existem mais discriminados do que nos mostram as estatística não tenho a menor dúvida, meu caro!

    Gostei dessa do "tolinho da aldeia" LOL
    Já pensaste em te inscrever na Segurança Social, parece que agora dão subsídios aos... tolinhos ;)

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  2. olé!
    como sabes adoro ler os teus lamentos, escreves tão bem!! que quase me sinto culpada por sorrir enquanto leio, por vezes textos q refletem algum descontentamento... bem sabes q não sou tão clara nas minhas opções politico\religiosas, e sim, tb eu por vezes esboço um sorriso quando falas da tua fé monárquica... desde já t peço desculpa... (mas não consigo evitar!!)
    pronto, admito sou um bocadinho descriminadora :(
    beij

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  3. Cara Emília!
    Adorei essa confissão tão espontânea! Mas ora, fossem todos «discriminatórios» como tu. O pior é que o processo a maior parte das vezes passa por cima daquelas etapas todas e a «discriminação» redunda em discussão estéril, quando não estúpida.
    Amigo Viajante! um grande LOL ou lolada!
    Sábio conselho! Era o que eu devia fazer - e fiz, vamos é ver se me tiram o subsídio, agora que faltei duas vezes à apresentação quinzena do termo de identidade e residência. Sou um bandido tolinho :( enfim.

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  4. Se calhar rimos ou sorrimos simplesmente por ignorância, porque achamos sempre que Portugal ( e é dos mitos que correm em Portugal desde quase sempre ) é um país de brandos costumes e muito tolerante. Ora se o fôssemos verdadeiramente, não precisávamos de o apregoar... E se eu o compreendo! vivo numa terra em que me sinto estrangeira, não sou filha nem irmã nem remotamente prima de ninguém conhecido na pequena urbe, ( embora alardeiem por todos os lados a grande hospitalidade beirã... outro mito!!!) tenho ideias muito próprias, não peço favores a ninguém ( entenda-se cunhas), divorciei-me ( só não me atiraram pedras, porque já estávamos na última década do séc. XX ; alguns esconderam as mãos, outros nem isso!) , casei-me segunda vez e, ainda por cima , a minha filha convive com respeito e camaradagem com o "padrasto", em vez de também lhe atirar pedras...
    e não acrescento que uso pouquíssimo o telemóvel, o que é motivo de olhares de soslaio que me divertem e a minha filha não quis que eu lhe comprasse carro, como todos os jovens da idade dela,( o que já me valeu quase uma condenação pública!) e anda lá por Barcelona, como andou por Braga e por Lisboa, em transportes públicos e a pé... e muito contente. isto parece uma confissão! LOL
    Mas uma pessoa tem que rir-se destas (des)intolerâncias porque as pessoas não sabem mais que isto...
    Grande abraço.

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  5. ..gostei de o ler :-)

    tem um desafio/brincadeirinha/corrente no Privilégios para si:-)

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  6. A discriminação agora atinge uma outra camada da população bem diferente daquela que os fedorentos orgãos de comunicação social querem impingir. Hoje o discriminado é homem honesto, o que não ostenta telemóveis de última geração e não calça tenis Nike que valem mais de 100 euros, e aqueles que se regem por valores.
    A subversão é total nos dias que correm, o relativismo está aí e a miséria a todos os níveis também.
    Bom texto.

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