29 de abril de 2008

Sangue pobre em oxigénio.

Na foto, o senhor Dom Augusto, Conde de Albuquerque,
na sua propriedade dos Açores, retirada daqui.


Apenas cheguei a Portugal pude maravilhar-me com uma reportagem da sic transmitida domingo à noite sob o título «Sangue Azul» (podem vê-la, na íntegra, aqui). Um punhado de aristocratas titulados (eram eles o Conde de Albuquerque, o Marquês de Fronteira, a Duquesa de Cadaval, o Conde de Calheiros e o Marquês de Abrantes) provenientes de vários pontos do país discursava sobre a sua etérea condição de nobres adiados, numa república que os tolera entre a compaixão e o desprezo. Fiquei petrificado com tudo aquilo (que é o mesmo que dizer que se me gelou o pouco sangue azul que tenho nas veias), mas a jornalista, ainda que tenha batido às portas erradas, explicou (mesmo sem o saber) muitas das razões que levaram o nosso movimento monárquico a ter sido mal gerido, durante anos, por gente como esta - alheada e realmente sufocada pelo sangue venoso em excesso que lhes corre nas veias. § O Camilo dizia que a genealogia era «uma ciência em que se distinguem muitos parvos» (Vinho do Porto), e de facto assim é. Ao invés de servir o estudo histórico, social e familiar, a genealogia tem sido usada para compilar listagens de nomes e apelidos, numa profusão de mentiras ou não-verdades que, sem método ou objecto, apenas servem descendentes ou aspirantes a fidalgos. § É um facto que a Casa de Cadaval, ou a de Fronteira desempenham ainda um papel determinante na sociedade portuguesa, proporcionando ao público o acesso às artes e à cultura. Mas os seus representantes são o produto de uma construção idealizada que parece desajustada ao nosso tempo. O ar blasé, o caminhar em bicos dos pés, peito para fora e ar enfadado dá a esta gente uma pincelada demodé e pobremente arrogante que já não cabe na sociedade dos dias de hoje. § Eu sou pela nobreza, acho-a absolutamente necessária - e não em venham com a conversa da igualdade. Perante a lei e o nosso semelhante somos todos iguais, sem prevalência de um sobre o outro e vice-versa. Mas não tentem escamotear a verdade: se fomos todos iguais (algo que nem a biologia ratifica) seria impossível a ideia de progresso, em qualquer uma das suas acepções. Mas a nobreza, mais do que herdada, deve ser merecida. E pela amostra, da qual se destacaram, pela positiva, dois ou três exemplares desta fauna, parece-me que a maioria recebeu mais do que aquilo que dá. 

Grande Reportagem: "Sangue Azul" Jornalista: Susana André Imagem: Fernando Silva, Pedro Góis, Vitor Quental Montagem: Marco Carrasqueira Grafismo: Cláudia Ganhão Produção: Isabel Mendonça e João Nuno Assunção Coordenação: Cândida Pinto Direcção: Alcides Vieira

1 comentário:

  1. O Zé Abrantes esteve bem. Aliás é um criador e um artista. E com sorte ao jogo:)

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