25 de março de 2008

Wikipédia: a construção do conhecimento ou a destruição do Saber?

Felizmente alguém se lembrou de lançar esta questão: e se a wikipédia, um projecto altamente meritório e interessante - talvez o livro interminável de areia, de que falava o Borges - se tornasse na coutada de «uma oligarquia de esquizofrénicos com insónia»? A pergunta é pertinente se atinarmos, verdadeiramente, com o esquema de governo pelo qual se rege este imenso «reino do conhecimento». Partilhar conhecimento nem sempre significa partilhar saber. A internet é prova provada deste exemplo. A democratização do acesso e da veiculação de informação transformou o mundo numa sopa primordial de «nada», de lodo estéril, de onde de vez em quando pontilha um broto de saber. A wikipédia é gerida pelos chamados geeks, que podem perceber muito de informática, de comandos básicos, simples e complexos da linguagem informática, mas muito pouco de História, Filosofia e Literatura. O caminho que a wiki segue nas mãos desta gente é um caminho terrífico de corte e cose, de desmanchos caprichosos e de orientações poucos claras, umas vezes de pendor político, religioso e outras, apenas, atribuídas a um qualquer furor clubístico. Aliás, numa altura em que se discute o acordo ortográfico, seria bom que os nossos governantes e gramáticos dessem uma vista de olhos pelo ciberespaço - a pátria de Pessoa foi com a corte para o Rio de Janeiro e não voltou. Pior, ficamos sem rei nem roque e sem língua. O Brasil tem o único Museu da Língua Portuguesa e com razão - eles falam o verdadeiro português, nós não. A wikipédia é prova disso - e é com isto afinal que estamos a educar a nossa juventude.

3 comentários:

  1. Meu caro, quanto a isso não há a menor dúvida, estamos a educar uma nova geração "wiki", "bolonhesa" e "sms".

    Como lidar com isto? Se souberes diz-me, sinceramente estou perdido...

    ResponderEliminar
  2. A mim parece-me que a democratização do conhecimento não pode ser nunca uma coisa má. Falam da qualidade das fontes, mas isso toca a cada um escolher. Querem conhecimento acessivel a todos mas de qualidade? Que qualidade? Decidida por quem? É melhor que a nova geração se confronte com muitos erros do que com uma só verdade escolhida. Digo eu, que sou totalmente já "geração wikipedia"

    ResponderEliminar
  3. Cara Eva,
    «Democratização do conhecimento», «qualidade das fontes», falamos de expressões e conceitos que não se aplicam à wikipédia. Este portal não é, nem uma democracia, na verdadeira acepção da palavra, nem se apresenta como uma fonte - se fosse, seguindo a filosofia que tem seguido seria tudo menos fiável. A wikipédia parte do pressuposto universal de que o conhecimento não é de ninguém e é de todos e que todos podem contribuir para o conhecimento. O que é louvável, mas utópico (talvez por isso a maioria dos wikipedistas seja comunista ou de uma esquerda irracional). Os administradores depressa perceberam que o conhecimento significa poder, e a este ninguém fica indiferente. DE uma sociedade primitiva, tábua rasa de classes e preparação cultural, passamos a uma hierarquização que inclui administradores, contribuintes, etc numa escala que permite fazer e desfazer, expulsar, punir, etc. E o que era um projecto aberto, tornou-se um misto de campo de batalha e campo de concentração do conhecimento. É nisto que a sua geração, a geração wiki, vai colher o saber. Não se trata de escolher ou discernir. Isso faz-se indo a uma biblioteca ou aum arquivo, aprendendo nas fontes a capacidade de destrinçar entre o bem e o mal.
    Digo eu, que já sou cota...

    ResponderEliminar

A Democracia exige Responsabilidade individual. Nicks, anónimos ou mensagens insultuosas demonstram faltam de auto-estima, comportamentos associais e incapacidade de lidar com a opinião alheia e, como tal, não serão publicados.