1 de março de 2008

Velhos títulos para tempos de hoje.


"- Mateus, estes senhores vão arranjar votos para ti com a condição de tu lá em Lisboa lhe arranjares umas coisitas que eles querem do governo.
- Tudo o que humanamente se puder fazer - disse o bacharel. - Diga cada um dos meus nobres amigos o que pretende.
O mais grave dos seis, falou assim:
- Eu queria que o sr. doutor arranjasse uma comenda, ou uma coisa assim para o meu primo António, que tem a loja da esquina da praça de Carlos Alberto, e já na outra eleição andei a trabalhar pelos históricos, ou que diabo são, e por fim de contas a comenda não veio.
- Conte seu primo António com a comenda; e V. Ex.ª não quer nada? - disse o candidato.
Eu só queria que o sr. doutor dissesse lá ao governo que mandasse cortar as árvores que plantaram na praça e me tiram a vista à minha casa.
- Serão cortadas as árvores.
- Eu - disse o segundo - tenho um filho formado a comer-me há doze anos as meninas dos olhos, e queria que o sr. doutor lhe arranjasse um despacho para delegado.
- Pode dizer ao seu filho que está despachado.
Falou o terceiro:
- Queria eu que V. Ex.ª fizesse com que a estrada em vez de passar em Guinfães, fizesse uma curva por trás da igreja de Ranhados, que me ia passar mesmo à porta.
- Nada mais fácil. Terá v. Ex.ª a estrada mesmo à porta. E o meu amigo o que quer?
- Eu queria que se botasse a terra o conselho de saúde, sendo possível.
É possível: logo que eu chegue a Lisboa o conselho de saúde há-de cair para nunca mais se levantar.
O quinto disse que tinha uma questão de grande importância no supremo tribunal, depois que a perdera em todas as instâncias. O bacharel teve a paciência de escutar os direitos do demandista, e lavrou o acórdão.
Finalmente o sexto eleitor pediu a bagatela de um caminho de ferro a Mirandela, por Murça, onde ele tinha uma herdade e parentela que nunca vira por falta de comunicações.
Maravilhou-se Mateus da parcimónia das pretensões e animou-os a exigirem mais alguma cousa. Tomou assentos na sua carteira, e deu um abraço em cada um, quando todo à uma lhe disseram: - Está deputado o sr. dr. Mateus."

CASTELO BRANCO Camilo - Cenas inocentes da comédia humana, 5.ª edição. Lisboa: Parceria A.M.Pereira, 1972, pp. 225-226.

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