30 de março de 2008

"Não vim trazer paz, mas espada." Mt 10, 34

Se não é a Igreja é a Bíblia. Se não é a Bíblia, é Deus, e se Deus não existe, é a interrogação. E a interrogação nunca somos nós, é a metafísica. Se, por exemplo, há fome, guerras e iniquidade no Mundo, a culpa é das religiões. Se há pessoas mortas, violadas ou vítimas de injustiça, a culpa é da Bíblia, do Corão ou da Tora. E em Portugal a culpa do atraso económico, social e cultural é sempre, e sem dúvida alguma, da Igreja. Ainda agora, ao ler uma notícia no público sobre a reacção da Conferência episcopal ao fim do divórcio litigioso, voltei a constatar do atavismo ideológico ou pseudo-ideológico de alguns cidadãos portugueses. Para eles a igreja é «rica», «que não se devia imiscuir em assuntos laicos», que «prática religiosa são os templos, não são nem hospitais nem escolas nem quarteis», que a Igreja apenas serve para «lavagem de dinheiro das grandes negociatas de droga e armamento»! Quereis a verdade? Aí a tendes, nua e crua. A Igreja Católica é a fonte de todos os males. Está feito, nada mais há a dizer: descobrimos a raíz do mal, agora é só extirpar a planta. § Não fossem os milhões de pessoas que dependem da caridade, da missionação, e do dinheiro sujo em a Igreja é obrigada a meter as mãos para dar de comer e eu diria: acabem já com isso tudo, abandonem à sorte dos estados laicos a solidariedade e a protecção social, já que os estados laicos se importam assim tanto, não com o número de contribuinte, mas com o humano na sua plenitude, não é verdade? Estas pessoas que confudem laicidade com liberdade devem pensar que o mundo obedece ao asseptismo das constituições, que tudo se rege por leis a favor ou contra. Propunha-lhes um exercício: comecem por pensar o que o Homem criou fora das religiões. E depois numa lista de duas colunas pesassem o que de bom (A) e mau (B) as religiões trouxeram. Já está? Pois, a coluna A ficou vazia. Era o que se esperava, não era? Agora sim, podemos pegar em armas e matar todos os crentes do planeta. Depois passaremos às igrejas, à arte dos museus, e às criações imateriais. Destruiremos o Vaticano e os milhões de templos por todo o mundo, reduziremos a pó a Pietá de Miguel Ângelo, a Kaaba e Jerusalém. Secaremos as fontes do Ganges e arrasaremos o Potala do Tibete, rasgaremos as pautas e Bach e Mozart que exaltem Deus; trucidaremos os nomes de santos, divindades e deuses, eliminando qualquer prova de transcendência; aboliremos os rituais, todos os rituais, para que não haja memória de evocações ou de evolução não biológica. Faremos uma limpeza ideológica, cultural e selectiva para que, do nosso mundo, resulte só e apenas um homem novo, centro do universo, dimensão de todas as coisas, sem reverências, só e limpo. § Nunca mais haverá guerras, pois não haverá diferenças religiosas nem cultuais; nunca mais haverá fome, pois o novo homem terá sempre comida para dar ao seu semelhante, sem ter que iludi-lo com promessas e libações; nunca mais haverá sofrimento pois não havendo esperança com que sonhar cada dia é uma rígida certeza de vida. O passado passou e o futuro não existe. Este é o mundo perfeito, onde Deus não existe. Culparemos quem, depois?

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