5 de março de 2008

A igreja em Portugal.

"Os bispos e os sacerdotes devem despertar a consciência de todos os católicos a votar, a manifestar a sua opinião. Depois, cada um decidirá o que vai fazer. Mas, sendo católico, ele sabe em quem votar. Não temos necessidade de lhe dizer para votar neste ou naquele partido. Apelar à consciência dos católicos é algo que se faz em todas as partes do mundo. Antes das eleições, as conferências episcopais ou os bispos aconselham os católicos a ser parte activa no processo. O resto, eles sabem decidir."

A singela entrevista que o Monsenhor D. Manuel Monteiro de Castro, embaixador do Vaticano em Espanha, deu ao JN, chamou-me a atenção. Entre outras coisas, D. Manuel refere a vitalidade religiosa e a excelência do ensino católico em Espanha, acentuando assim a diferença entre ambos os países. Supomos, pelas suas palavras, que Portugal é, em termos de acção católica, um país apagado. Não posso esconder o meu total acordo com as consideração de D. Manuel. Já o tenho dito e reitero, a Igreja portuguesa anula-se em mesuras desnecessárias e palavras mansas. Submete-se demasiado ao poder político, até mesmo ao autárquico. E recusa politizar-se em detrimento de um silêncio que vai causar-lhe danos irreparáveis. Está aí para o aborto, mas fecha os olhos aos ataques primários de certos quadrantes da sociedade e da política portuguesa; assobia para o lado, ou vira a cara para o chão, quando não tem razão para o fazer. Acobarda-se e, não raras vezes, recusa o diálogo com os leigos. Porque o faz, quando tem a faca e o queijo na mão? Vejamos: a Igreja controla a maior parte das instituições de assistência e solidariedade social em Portugal. Bastaria abdicar da sua manutenção para fazer ruir o sistema da segurança social portuguesa. Outrossim a Igreja detém acima de 70 por cento do património histórico e cultural nacional. Pode não agradar a muitos, mas é a mais pura das realidades. Com que património acenamos aos turistas nacionais e estrangeiros? A fórmula praia e sol esgotar-se-á e depois, que futuro há para o turismo em Portugal que não passe pela cultura e pela dinamização dos espaços históricos e, nomeadamente, os edifícios religiosos? Por fim, no ensino e na comunicação social a Igreja tem traçado um caminho sólido, mas nos dias de hoje apagado. Não admira, como alguém disse, que um destes dias a Igreja volte à clandestinidade. Mas isto no caso da Igreja portuguesa por que, e não me acusem de ser iberista ou castelhanófilo, em Espanha igreja escreve-se com "i" grande, tem um aparelho bem talhado e sólidos alicerces - construíu-os a cultura e na coragem que falta à sua congénere portuguesa.

2 comentários:

  1. Bom texto e bom blogue. Vou voltar.
    Anad

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  2. Como sempre os seus textos obrigam uma reflexão inesperada...

    ( Pois por uma vez pelo menos, estaremos todos unidos...)

    Grande abraço.

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