12 de fevereiro de 2008

"Quem dorme à noite comigo?"

É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo... (Reinaldo Ferreira)


Estive a assistir, noite passada, ao Prós&Contras sobre a Justiça e a Corrupção em Portugal e, a páginas tantas, a Fátima Campos suscitou a questão da bufaria. Questionava ela se este clima de recados e mensagens, do «diz que disse», sobre o óbvio - que a corrupção está em todo o lado - não ressuscitaria o bufo que há em cada um de nós e que em épocas como a Inquisição e a PIDE saltou cá para fora como um coelho da cartola. A resposta do Sr. Prof. António Manuel Hespanha, por quem tenho a maior estima, disse que não, aquele não rotundo e incisivo dele. E acrescentou em tom grave que era necessário saber-se tudo, vir tudo a lume, numa espécie de grito colectivo absolutamente catártico. Ora, todos nos sabemos que de há uns tempos a esta parte o único bufo que assoma às porta com o ar de «posso-dar-lhe-uma-palavrinha-senhor-director»? é o bufo político, aquele que denunciou o Charrua e aqueloutro que foi imediatamente denunciar o cartaz que um médico mais audaz mandara expor num centro de saúde de Vieira do Minho. De resto, todos - e quando digo todos, são todos mesmo, - têm medo. § A pirâmide hierárquica deste país treme como varas verdes: o empregado a recibos não abre a boca para denunciar a entidade empregadora porque sabe que em poucos dias é substituído; as chefias intermédias, médias e afins fecham-na e só a abrem para dizer àmen a quem as nomeou, e os políticos vorazes (diria mais, os políticos gorazes - para enxertar na conversa a citação do sermão de S. António aos peixes que até a Odete Santos [!] citou como exemplo da corrupção em Portugal) nada dizem porque o segredo é alma do negócio. E até a Igreja tem medo, desde o pároco de aldeia - que cada vez mais compactua com o poder político local com medo de perder as esmolas autárquicas - até à Conferência Episcopal que vê o poder escapar-se entre as mãos todos os dias - aulas de Religião e Moral, aborto, Capelanias do exército e dos hospitais, património, etc. - não fazendo absolutamente nada, ou muito pouco, para reverter esta tendência. § E recentemente vimos como o medo actua no exército, que se acobardou perante dois ou três puxões de orelhas da extrema-esquerda. Tudo a bem da república, claro; tudo a bem da moral da república. No meio disto até o P.S. treme e deve andar a ansiolíticos para aguentar as investidas do Manuel Alegre e dos jornais que têm malhado neste governo como gente grande. É assim mesmo, a viver no medo, como vivemos todos, ao menos que seja como dizia o sapateiro de Braga: ou comem todos pela mesma medida ou não come ninguém!

P.S.1: os exemplos não páram de aparecer. Ver aqui.

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