1 de fevereiro de 2008

Factos & argumentos?

D. Luís Filipe, Príncipe Real, assassinado no Terreiro do Paço,
juntamente com seu pai,a 1-I-1908. Via Vidas lusófonas.

Facto 1: No dia 1 de Fevereiro de 1908 o rei D. Carlos I, chefe de estado, foi assassinado numa acção premeditada, fria e sanguinária.
Facto 2: Com ele faleceu, também assassinado, o filho, princípe herdeiro, futuro governante de Portugal;
Facto 3: Em 1908 vivia-se numa monarquia, constitucional, em regime democrático, com eleições livres (condicionadas apelas pelas imposições prescritas na Constituição e respectivos Actos adicionais) que foi conquistado em 1834 e terminou em 1910, com um golpe de estado, sendo reposto apenas a 25 de Abril de 1974.
Facto 4: Em 1908 havia partidos políticos, liberdade de associação (e até de associação criminosa, de tal forma que a Carbonária pode com à-vontade matar o chefe de Estado), sem censura instituída, nem perseguição ideológica (e repare-se que me referido ao nível ideológico, não à rede de caciques e clientelagem partidária que desde o liberalismo até aos dias de hoje caracteriza a pequena, média e alta política nacional);
Posto isto: Sem julgar a História, ou os seus intervenientes, (que, de facto, nunca foram julgados) por sermos hoje uma república, não impede se homenageiem figuras da monarquia, como alguns querem*. Afinal de contas fomos uma monarquia durante cerca de 800 anos.

A República Portuguesa e os verdadeiros republicanos (não os desorientados, nem os ignorantes que pululam na nossa intelligentzia de esquerda) saberão com certeza honrar os mortos portugueses, sejam eles de que partido ou ideologia forem. Com os outros dorme o medo. O medo e uma certa angústia de mostrar mediocridade**.

*/**E o que estes, poucos felizmente, querem, é homenagear os «mártires da liberdade», que segundo um tal Carlos Esperança «Puseram termo à vida do rei, imolando a sua. Usaram a violência contra a violência do regime, sonhando com a República sob os escombros da monarquia que agonizava e a que vibraram um golpe fatal». Este excerto é sinistro. Comparar dois assassinos com verdadeiros mártires da liberdade, como Gandhi, Martin Luther King, ou, mais perto de nós, os que tombaram nas Campanhas Peninsulares, na Guerra Civil de 1832-34, ou ainda Salgueiro Maia, Álvaro Cunhal e outros («mártires» não por que morreram em combate, mas por que ofereceram a sua vida a uma causa), é hediondo e só pode vir de alguém cujo fanatismo impede uma visão clara e com discernimento sobre a História e o tempo em que nos encontramos - o qual não é, de modo algum, propício a elegias a terroristas. Há nomes para esta gente, que foi, com cartazes e máscaras, à Praça do Comércio envergar faixas do Bloco de Esquerda. Este grupelho partidário goza de uma aura de majestade entre a nossa intelligentzia e os nossos jovens que embora não aspirem a integrar as fileiras daquela, vão agarrando como podem os momentos para contestar. O BE, com as suas causas de modas são como a colecção Primavera/Verão da nossa sempiterna silly season política e os manipansos que o gerem, como o Fernando Rosas, vão-se encostando à condição de intelectuais, professores universitários, para assim consolidar uma mensagem que não é diferente daquela que o Partido Republicano fez passar durante a monarquia: ideologia e valores filosóficos em barda, aproximação ao real, zero. Mas atenção, não descuremos estes senhores. Ouve-os atentamente o Parlamento, obedecem-lhes generais, ministros e até presidentes. Por outro lado, teremos sempre a sempre a consolação de que, porque este partido é constituído por uma amálgama de gente dificilmente homogénea - desde historiadores a trapalhões - haverá sempre o rídiculo a encobrir qualquer razão que o BE tenha, como a manifestação que juntou uma dúzia de rapazolas no Terreiro do Paço para apoiarem dois homicidas.

Como historiador, espero que a História se encontre consigo mesmo e o regicídio seja clarificado como deve ser qualquer facto histórico, seguindo a imparcialidade e usando das metodologias necessárias a tal. Como monárquico, lamento que o movimento monárquico não se tenha ainda libertado de certos fardos, e que o republicanismo português (se é que ele existe) seja encabeçado por indivíduos tão pouco humanistas e mesquinhos. De resto, paz à alma daqueles que pereceram. O sangue que derramaram não saldou dívidas, nem curou feridas. E a história continua.

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