27 de janeiro de 2008

Uma exposição de «Arte Sacra» em Cinfães




Aspectos da exposição de «arte sacra» no Museu Serpa Pinto, em Cinfães.


Um dos primeiros municípios a manifestar interesse pela continuação do programa de inventário do património religioso na diocese de Lamego foi Cinfães. Em Outubro tomámos a iniciativa de ofertar ao senhor Presidente da Câmara um exemplar dos catálogos produzidos para Lamego e Tarouca e aquela edilidade não perdeu tempo: em pouco menos de 2 meses levou a cabo uma iniciativa que convencionou chamar: «arte sacra do arciprestado de Cinfães». São, aliás, expressivas as palavras do senhor Prof. José Manuel Pereira Pinto no prefácio que redigiu para o roteiro da referida mostra: «[esta exposição] é como que um ponto de partida para uma reflexão acerca das potencialidades do concelho e do arciprestado no que se reporta à eventual inventariação e estudo deste património religioso». Aproveitando a época e porque se trata de uma região e de um tema que me são especialmente caros, fui até ao Museu Serpa Pinto visitar a referida exposição. O que vi deixou-me francamente desiludido. Sem qualquer linha de orientação temática, estilística ou histórica amontoam-se ao longo de um corredor, - ora sobre plintos cobertos por um pano de flanela vermelha (!), ora no chão (!) -,19 peças que de maneira alguma caracterizam o «riquíssimo património religioso» de Cinfães, se não o «pior» que se exibe nas nossas igrejas. Falo de imagens sujas, não intervencionadas a nível conservativo, sem qualquer qualidade de execução, profundamente repintadas, cheias de cores garridas e visivelmente retocadas por mãos pouco conscientes - objectos que que exibem pregos, ferros de andor, coroas e outros componentes desajustados ou ao valor ou à integridade visual e artística das peças. Não irei, sequer, alongar-me ao referir o pobre conteúdo do catálogo, cuja leitura nos remete para as análises pouco cuidadas dos «Santos padroeiros do concelho de Cinfães», obra que a C.M. de Cinfães editou em 2000… Para além da imagem representando a Virgem amamentando (dita de Santa Maria Maior de Tarouquela) e de uma Santa Marinha, calcária, proveniente de Ferreiros de Tendais, todos os demais objectos foram recolhidos, dir-se-ia aleatoriamente, sem qualquer preocupação de apresentar uma mostra criteriosa, apelativa e pedagógica (as fotos, acima, falam por si). Aliás, a imagem que referi, a de Santa Maria Maior, - que representou Cinfães na exposição do Jubileu «Cristo fonte de esperança» (em 2000) - avaliada como uma das mais expressivas peças de imaginária sacra de importação, em Portugal, foi simplesmente «encostada» a um degrau de uma «tribuna» improvisada, retirando-lhe toda a aura de valor sagrado e artístico. Depois dos louvores manifestados junto da Diocese a propósito da intervenção na defesa, conservação, estudo e promoção do património em Lamego e Tarouca, esta exposição de «arte sacra» cinfanense constitui um inquietante revés na política de administração do património diocesano - que é, canonicamente, o património do Sumo Pontífice, pela sua condição de administrador e distribuidor de todos os bens eclesiásticos (Can. 1273). Preocupa-me, pois, que tais iniciativas possam ser realizadas de forma tão leviana, como o foram em Cinfães, sem o conhecimento da Cúria Diocesana, apenas com a coordenação e organização da Câmara Municipal (Pelouros da Acção Social, Cultura, Educação e Turismo). Os organismos civis, governamentais, regionais e locais, são os primeiros a terem interesse na conservação, estudo e divulgação do património religioso mas não podem, nem devem, sobrepor-se ao primado da Igreja que deve implementar esforços no sentido de, continuadamente, manter conservado e íntegro o histórico pecúlio que recebeu das gerações precedentes. A exposição «arte sacra» no arciprestado de Cinfães não é, pois, um ponto de partida se não um lamentável retrocesso no trabalho iniciado em Foz Côa, em 1997, e recentemente continuado em Lamego-Tarouca. Consciencializar os senhores párocos, que são os primeiros responsáveis pela administração do património dos nossos templos, e os paroquianos para a preservação do património local não passa por apresentar exposições deste teor. Conhecer (inventariar) e preservar deverão constituir os primeiros passos. Só depois se seguem as iniciativas de promoção e educação, com a consequente publicação de catálogos e a realização de exposições. A Câmara Municipal de Cinfães, a cuja instituição se deve louvar o súbito interesse demonstrado no património religioso, começou pelo fim. Esperemos que, para louvor a Deus, a Cristo, à Virgem e aos Santos, bem como à fidelidade história e artística do arciprestado de Cinfães, possa, a seu tempo, corrigir esta inusitada e infeliz acção.

3 comentários:

  1. Isto é verdade? Isto é mesmo verdade? Só posso estar a delirar.
    Só podem estar todos a delirar.

    A diocese que tome uma posição por amor a "Cristo, à Virgem e aos Santos, bem como à fidelidade história e artística do arciprestado de Cinfães"

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  2. Verdade. Tirei fotos, porque isto é daquelas coisas que, em 2008, contado ninguém acredita. Mas está à vista de todos até ao final deste mês. Mas é claro que ninguém tomará qualquer posição. Fiz eu esta pequena nota, porque...olha nem sei muito bem, talvez porque seja mesmo... crente.

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  3. por vezes parecemos bijagós, com a infelicidade de não semos tão divertidos, os regulos da minha tabanca também têm destas iniciativas iluminadas!!! há q ter paciencia e muita fé...
    um abraço!

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