6 de janeiro de 2008

Portugal. Now and then.

Há coisas que nunca mudam. O anoitecer e o amanhecer, o dia e a noite, a neve nos pólos e a incondicional e abnegada boçalidade portuguesa. É mítica, todos a conhecem, todos a sabem reconhecer e não houve escritor, pintor ou outro artista que não a reproduzisse ou a ela se referisse depois de uma passagem por Portugal. Ralph Fox, um homossexual comunista em certa altura encantado com os bigodes loiros dos marinheiros que o acompanhavam na penosa viagem a este país encantado, aportou em Lisboa em 1936 para traçar um retrato nada glorioso da nação entregue ao regenerador «Salazar» ( expressão é do Fox). Até aqui nada de novo. Mais um inglês, com poucos conhecimentos de História de Portugal (mas com vantajosos conhecimentos financeiros) traçou o retrato de uma república aniquilada por uma monarquia impopular: «o último rei, o devoto e gordinho Manuel, era famoso por uma única razão: a sua dedicação apaixonada e dispendiosa a uma conhecida bailarina francesa». Não era D. Manuel, era D. Carlos, não era bailarina, era cantora - a história está mal contada o que não espanta, vindo de alguém que de bailarinas ou cantoras pouco entenderia. Mas Ralph Fox não se insurge, apenas, contra o que de chama de «obscurantismo, a sujidade, a ignorância e a pestilência generalizada», obra, segundo ele, da Casa de Bragança - vai mais longe, dizendo que os palácios reais de portugal são «monumentos à ignorância, à estupidez e a uma quase inacreditável falta de gosto dos seus proprietários». Claro que os palácios reais portugueses não são os palácios reais ingleses, muito menos a nossa monarquia se podia comparar «à sua». Há uma coisa interessante nos ideólogos britânicos, sejam os da direita, sejam os da esquerda: o que nos outros países é péssimo, embora no Reino Unido também o seja, é sempre um ponto a favor ter-se e ser-se uma nulidade em Inglaterra. Não me espanta, nem me dói na consciência patriótica ou ideológica que D. Miguel andasse aos tiros a carneiros ingleses, como se conta por aí... Honra seja feita a D. Miguel por acertar em carneiros ingleses. Dos proteccionismos britânicos vieram sempre maus ventos e nada bons casamentos - e não de Espanha. Nós ficamos sempre sem lã, sem vinho e sem honra: enregelados, sóbrios e pasmados. Regressando a Fox e ao seu vol d'oiseau por Portugal, o que importa reter da leitura deste pequeno livro - que o autor nunca viu impresso, pois morreria nas trincheiras republicanas espanholas - é o registo paternalista, comum a tantos outros autores que cá passaram. É evidente que há coisas que nunca mudam, e a boçalidade, os vícios veniais, a sociedade apática e os políticos corruptos continuam cá - o que não impedia que metade da Europa civilizada gostasse de banhar os pés nas praias do Estoril, ou explorar os camponeses - tão pobres e tão sujos - que pulavam de Norte a Sul do país. Afinal de contas Salazar, de tão inteligente que queria parecer, acabou por ser o ditador menos respeitado e mais usado de uma Europa devoradora. E os ingleses, «nossos maiores aliados», sempre abriram a boca para dar a maior dentada. Há coisas que nunca mudam.

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