8 de janeiro de 2008

O último grande amor a Portugal.


Sim, quem leu já o livro "O último minuto na vida de S." reconhecerá que o tópico que acompanha o título deste blogue, foi «transcrito» para papel da boca de Snu Abecassis, num dos seus derradeiros segundos ficcionados por Miguel Real. Esta obra foi lançada em finais do ano passado e retrata uma parte da vida de Ebbe Merete Seidenfaden, que ficou conhecida na História de Portugal como a amante de Francisco Lumbrales de Sá Carneiro, primeiro ministro de Portugal (entre Jan. de 1979 e Dez. de 1980). Isso mesmo, amante, amásia, concubina, quase meretriz, se antentarmos bem nas hipócritas palavras de Mário Soares, datadas de 1980: se Sá Carneiro não consegue governar a sua família, não pode governar o País. No fim, que país havia para governar? «(...) o teu país não vale a minha vida, tu vales, pot ti morrerei, mas pelo teu país não, há quinhentos anos que este país não vale uma missa, quanto mais uma vida, e logo a minha e a tua, um amor feliz em terra de elites masoquista, queixam-se e recriminam-se atirando as culpas para o povo, mas quem faz as leis e as regras não é povo, é essa miserável elite donde vieste, amor, donde te destacaste, ah querido, porque tinhas que te destacar, não deixam, em Portugal, não deixam, sempre que alguém se distingue tem de adoecer ou morrer, só humilhado pode continuar, o Damião de Góis assassinado, o Vasco da Gama esquecido, o Sá de Miranda banido, o Camões agasalhado em miséria, fugido, o Francisco Manuel de Melo expatriado para a Bahia, o padre António Vieira lugado por inquisidores inferiores a gafalhotos, o Cavaleiro de Oliveira queimado em efígie, o Pombal desterrado, o Eça exilado por conta própria, o Anterio suicidado, o Mário de Sá-Carneiro envenenado, o Pessoa silenciado, o Sena arredado, o Pascoais isolado, o Torga abafado, o Régio ameaçado, o Vergílio intimidado, o Lourenço banido, o Agostinho da Silva perseguido, o França imcompreendido, o Mário Soares preso, o Cunhal clandestino, quantos mais, tu és apenas mais um, amor, dear, é a cáfila a retorquir, a récua a abafar, a caterva a asfixiar, a corja a vomitar, a matilha a destruir, a turba a invejar, a chusma a maldizer, a horda a barbarizar, os funcionários a desfuncionarem, como dizia O'Neil, os empregados a invejarem, os caixeiros a intrigarem, as domésticas a mexericarem, os directores a priveligiarem, os patrões a explorarem, os políticos a mediocrizarem, os secretários a caluniarem, os subordinados a difamarem, os chefes a abocanharem (...). Cá em casa cresci a ouvir falar numa mulher esbelta e inteligente que amara Sá Carneiro, um salvador desta pátria a quem a pátria tratou como sempre trata os seus salvadores, com servilismo e inveja. Apaixonei-me por ela e venerei-a num lugar longínquo da minha memória. Hoje, ao terminar a leitura do livro de Miguel Real, que há muito me habituou a uma prosa riquíssima e excruciantemente viva, derramei lágrimas como nunca havia derramado sobre letras. Mais do que homens e mulheres que não deviam nascer em Portugal, há amores perfeitos de mais para caberem num rectângulo tão obtuso, como o que compõe este país.


REAL, Miguel - O último minuto na vida de S. Lisboa: Ed. Quidnovi, 2007. ISBN 978-972-8998-80-6.

1 comentário:

  1. Recordo-me da Manuela Eanes não permitir a Snu no Palácio de Belém e das confusões protocolares que este romance (hoje normal) causava no Portugal dos inícios de 80.

    Tenho uma enorme admiração por Sá Carneiro e um profundo respeito pela Snu, que foi mais do que a companheira do político. Era uma mulher inteligentíssima, dinâmica e culta; fundou a D. Quixote...

    O infortúnio de Snu foi ter vindo para Portugal e ter conhecido o "Francisco". Pode parecer cínico da minha parte, mas pelo menos morreram juntos. A mísera política lusitana tinha de acabar com eles de alguma forma.
    Como todas as histórias de amor, esta foi apaixonante e dramática.

    Partilho a sua emoção.

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