11 de dezembro de 2007

A terra de Nod.



Comprei há um par de semanas a Boémia do Espírito (4.ª edição, de 1959 - a 1.ª é de 1886, Lello & Irmãos, brochado, 504 pp.) do meu muito amado Camilo. Trata-se de uma selecta de crónicas várias (históricas e jornalísticas) que o autor engendrou ao longo da sua vida recheada de polémicas e descrições picarescas. Quanto a mim Camilo Castelo Branco é génio, não porque alinhou no snobismo do país para poder conquistá-lo, como fez Eça de Queirós, mas por que se riu dele - do país e dele próprio. É o segredo da alquimia do bem viver em Portugal: rir. E, nesse aspecto, melhor do que ninguém Camilo soube distanciar-se da irracionalidade ao, no trágico da sua vida e do país onde nasceu, espicaçar a condição humana e social de um país que muito pouco mudou em pouco mais de século e meio.

Alexandre Dumas, Filho quer que Caim casasse com uma macaca, natural do país de Nod, terra desconhecida a Estrabão. É lógicamente rigoroso que um país desconhecido a Ptolomeu e outros geógrafos antigos seja país de macacas. Se V. S.ª não achar no mapa de Portugal a terra onde fui criado e educado, a Samardan, fica autorizado a decidir que eu, em pequeno, andava lá pelos bosques a brincar com as caudas dos cinocéfalos, meus mestres de ginástica e gesticulação.
- De onde és tu, meu amor? - pergunto, na praia da Foz, á mulher que adoro.
- Sou de S. Gonhedo - respondeu ela.
- De S. Gonhedo? Espera aí.
Abro o «Dicionário geográfico» de que ando munido depois dos últimos acontecimentos. Procuro S. Gonhedo, e não acho.
Começo a suspeitar que o meu amor é de Nod - que é, pelo menos, amacacada. Disfarço, acendo o meu charuto, e safo-me. É o mais prudente.

C.C.B. in «A Espada de Alexandre», na colectânea Boémia do Espírito.

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