24 de Novembro de 2009

Martírio no feminino: fotografia e iconografia

22 de Novembro de 2009

«Outro se querendo navegar pola rota do seu exórdio deles, pedindo a V.A. favor & emparo, pera que minha enferma escritura não seja ferida de línguas danosas. Parece-me injusta oração pedir tão alto esteio pera tão baixo edifício, quanto mais ainda que dino foram de tão nobre emparo, tenho considerado que Cristo filho de Deus sob emparo de poderio eternal do Padre & todos os seus bem aventurados santos não passaram por esta vida tão livres, que dos malditos detratores não fossem julgadas suas divinas obras, por humanas leviandades: sua santa doctrina, por máxima ignorância; sua manifesta bondade, por falsa malícia; sua santíssima graça, por sorretício engano; sua excelsa abstinência, por vil hipocrisia; sua celeste pobreza, por terreno vício

Gil Vicente

19 de Novembro de 2009

#Sugestões: congresso.


Sem esoterismos, histerias e outras quejandas coisas que não lembram ao Diabo, este congresso sim, vem discutir o essencial. Para mais informações, ver aqui.

16 de Novembro de 2009

A arte de gastar II.



(...)
Chegou enfim o dia da repartição da terça. Eram cerca de oitocentos os pobres dados na lista, e duzentos contos a terça dos três milhões. Orçou por sessenta moedas de ouro a esmola de cada um. (...)
Sumariando os males que imediatamente à distribuição do dinheiro se experimentaram, não houve no decurso do ano seguinte jornaleira nem oficial de alguma arte que aceitasse trabalho. As filhas dos lavradores equipadas de grilhões e arrecadas de ouro, afligiam os pais com rogos de iguais enfeites; e, se lhos negavam, fugiam da labutação dos campos, compelindo os pais a premiarem-lhes a desmoralização da desobediência.
Convergiram àqueles sítios jogadores de longe, sendo a esquineta o jogo mais na voga e livremente exercido em público.(...)
Duas especialidades de luxo, de algum modo ridículas, se manifestaram naquele gentio de oitocentas pessoas, apostadas a dissiparem algumas centenas de contos: uma era que todo o herdeiro comprou seu garrano; a outra era regular cada qual o seu tempo por dois relógios à feição dos «incríveis» do Directório em França. Em dia de romagem, cada freguesia regorgitava uma caravana de romeiros, cavalgados em garranos, gritando à desgarrada: «Viva Londres!» e, à porta de cada taberna, se algum ébrio bastante cínico bebia à saúde do defunto Manuel Vieira, a chusma gargalhava, babujando com a espuma do vinho uns chascos vilanazes como eles esvurmavam desta ralé do Minho, a mais bestial raça que estanceia na Europa

Camilo Castelo Branco, O demónio de ouro, vol. II.

A Arte de Gastar I.

Família que ganhou 600 mil euros no totoloto vive hoje de rendimento mínimo atribuído pelo Estado português.

«(...) três milhões. Esta quantia em 1799 era um colosso de ouro, uma fábula oriental, o sonho de um avarento, o mais que poderiam dar de si as fábricas de moeda que cabiam na imaginação de Lacalprenéde e Redacliffe.
(...)
Agora abramos a lista dos co-herdeiros dos três milhões de herança de Manuel e Eulália Vieira.
Determinaram ambos os testadores que a terça fosse distribuída pelos pobres de Rendufinho, onde Manuel havia nascido, e pelos de Vilar e Geraz, donde eram os pais de Eulália. (...)
Na cobrança dos legados contravieram estorvos e trapaças de toda a espécie, desde a justa precaução da lei até à ladroeira desbragada.
Por parte dos pobres, contemplados com a terça, saíram com procuração uns solicitadores que já se haviam enriquecido, mancomunados com as justiças inglesas, antes que os herdeiros pusessem as vistas nas pilhas nos soberanos. (...)
Na repartição da terça pelos pobres de Vilar e Rendufinho ressaltaram novos impedimentos. As outras freguesias do concelho destacaram moradores provisórios para as duas contempladas. Cada lavrador encheu as suas cortes de criados gratuitos, sob condição de os arrolar na lista dos pobres. (...) Lavradores remediados apresentaram certidão de pobreza com grande escândalo dos verdadeiros pobres que umas vezes espancavam os adventícios, e algumas vezes os seus próprios vizinhos, de quem haviam recebido mercês.
Na expectativa da herança, que em Lanhoso sofrera grossa sangria dos agentes emparceirados com a justiça, os jornaleiros recusavam pegar na enxada, e as mulheres olhavam para as rocas e sarilhos com entojo. Faltaram braços para as ceifas; a colheita de dois anos foi mesquinha; e, primeiro que se emborcasse a cornucópia das peças, houve fome. (...)»

Camilo Castelo Branco, O demónio de ouro, Vol. II.

11 de Novembro de 2009

Coisas interessantes ou coisas que interessam?

Num país com uma longa tradição de corrupção, numa altura em que aumentam de dia para dia os escândalos descobertos nas esferas da alta finança, o Governo e a Igreja vêm discutir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tanto o Estado, na sua faceta providencialista, (quando não simplesmente manipuladora), como a Igreja, enquanto instituição dotada de personalidade jurídica e com inegável importância na sociedade portuguesa (quer queiram os jacobinos, quer não) têm todo o direito a intervir nesta questão que ultrapassa aspectos meramente legalistas. § Mas se do lado do Estado, a questão se assume de um simples ponto de vista - cumprimento de uma agenda política (PS), dependente de outra (BE) - preocupa-me que a Igreja, enquanto instituição com preocupações assistenciais e sociais, alinhe nesta estratégia do atirar areia para os olhos dos portugueses. Um referendo esclareceria a questão: ganharia, muito provavelmente, a abstenção. Mas é desnecessário. § A quem interessa o assunto? Às minorias, a um Bloco de Esquerda que se esgota neste tipo de abordagens e a uma franja da Igreja acoitada que tenta fundamentar-se num modelo de família heterossexual, fiel e monogâmica, recusando a mudança social, rápida e indiferente ao casamento. Hoje mesmo uma notícia o confirma: os portugueses casam-se cada vez menos e os divórcios duplicam. Não seria melhor que a Igreja fizesse uma campanha a favor do casamento heterossexual em detrimento de uma política de agressão (que não quer, nem pode aguentar) contra o Governo? O que não deixa de ser paradoxal; ou seja, que as pessoas do mesmo sexo, queiram equiparar-se aos casais heterossexuais, constituindo uma família (ainda que sem laços consanguíneos), espelho daquela que a Igreja advoga como pedra basilar da sociedade. Em que ficamos então? Ficamos a olhar para uma desagregação da Sociedade em uniões de facto, outras momentâneas, poligâmicas, promiscuas em vez de apoiar as estruturas nucleares (que, como bem sabemos nunca foram o modelo apresentado pelo catolicismo) (*)? § A Igreja não pode aguentar esta batalha, nem quererá, dado que é refém da República Portuguesa. Esta dependência começou no Liberalismo e hoje é cada vez mais evidente, quer na forma como do Estado dependem em larga escala as IPSS's católicas, que a nível municipal onde os párocos locais são, tantas vezes, extensões das edilidades que, em alguns casos, não se poupam a esforços para agradar a fiéis e comissões fabriqueiras. § Que o Partido Socialista use destes truques para ludibriar as atenções sobre a corrupção, o desemprego, ou o défice, etc, compreende-se, sendo certo que colhe tais habilidades na cartilha para a boa arte da política. Mas que a Igreja embarque nesta perigosa aventura, preocupa-me. O assunto não se esgota ou no sim ou no não, nem é situação que obrigue a uma discussão urgente. Mais ainda quando todos os dias encontro um novo sem abrigo a dormir numa das ruas aqui do Porto.
(*) Basta percorrer os antigos Róis de Confessados para perceber que o modelo «heterossexual», patriarcal e fechado é uma construção meramente teórica...

4 de Novembro de 2009

Castas Corruptíveis.

Nos grandes ninguém toca, porque os pequenos não deixam, ou não querem, respondo eu a Mário Crespo. Quem não vê com benevolência as pequenas maroscas portuguesas? O desenrasque-se quem puder? o chico-espertismo de que falava Eduardo Prado Coelho e todos os filósofos de ontem e de hoje? Enquanto houver uma cultura de facilitismo, os grandes roubam e ainda dão grandes lições de vida ao vulgar português: roubar compensa e é um modo de vida como qualquer outro. A mudança tem de começar de baixo para cima, porque o topo já está podre. Quando a copa de certa árvore está atacada da moléstia, não há se não esperar que seque para a arrancar e plantar outra. Devemos fazer os possíveis para que a próxima não venha contaminada.

2 de Novembro de 2009

1#notas republicanas

Via Biblarte (Flickr)
Fotógrafo: Estúdio Horácio Novais


É Salazar. E a bandeira é a da República Portuguesa. Não, não há engano. Ao contrário do que algumas pessoas, como o sr. Mário Soares, querem fazer crer, não houve suspensão da República entre 1926 e 1974. Vamos mesmo comemorar o Centenário da dita no próximo ano.

1 de Novembro de 2009

Cabeças de abóbora.



Enquanto ontem e hoje os urbanos andavam a ensinar os filhos a fazer cabeças com abóboras e a pedir doces pela rua fora, como fazem os filhos dos outros, na América, eu andava Douro acima e Douro abaixo a matutar nas coisas da vida. Coisas como: onde está o amor pelos mortos? o amor pelos antepassados? Depois lembrei-me...mas, se nem o há pelos vivos. E encolhi os ombros. Lembrei-me depois de umas certas sociedades, ditas «primitivas», que têm nas suas cultura um código que os compromete a respeitar os mais velhos e a ter pelos que faleceram um respeito que os filhos não têm hoje pelos pais (ou vice versa). Aqui, nas cidades, nas redes sociais, talvez sejamos nós os mortos e no fundo não nos respeitemos uns aos outros. § Mas, que história é essa do Halloween, afinal? Já não temos que «comer» os americanos todos os dias do ano? Aquela gente estúpida que passa a vida a dizer que as religiões isto, as religiões aquilo e que tudo é (mal) gerido pelas religiões, não faz um acto de contrição e começa a questionar outras coisas, como estas parvoíces? Só temos Harry Potter's, vampiros, anjos com atitudes estranhas, ainda nos fazem falta as abóboras com caras estranhas? Eu dizia, se o recato me deixasse, o que alguns desses pais podiam fazer com as abóboras. Mas prefiro aconselhar o doce, com umas lascas de noz ou amêndoa, para desenjoar da parvoíce. Hoje comemora-se o Dia de Todos os Santos e amanhã o dos Fiéis Defuntos. Até prova em contrário esta jangada de pedra ainda não navegou até ao outro lado do Atlântico.

Na mouche.

É a golpadazeca do ordinareco que faz umas jogadas, umas burlas, umas corrupções, umas porcarias, umas porcarias, condenando o país e com uma ilusão: é que quando morrer acha que leva isso tudo."
Via 31 da Armada (obrigado Raquel)

É óbvio que quem assim sem fala é tomado como louco. Um expressivo e completo alienado que não só deveria ser exilado como é uma terrível ameaça à morrinhice portuguesa. Mas nunca ninguém definiu tão bem e com tão poucas palavras o funcionamento da nossa sociedade. É que o ordinareco não é só o de colarinhos brancos. As jogadas, as burlas, as corrupções são os patamares da hierarquia em Portugal. Passar à frente na fila de trânsito, cobiçar o emprego do amigo, roubar as ideias dos outros são tópicos comuns em qualquer parte do mundo, aqui são a cartilha. Aquela frase devia passar de meia em meia hora nas rádios e na televisão. Podia não adiantar de muito, mas sempre nos lembrava o que somos.